Futebol

O craque e a dor de cotovelo

Por Rodrigo Arruda*

Sim, amigos, admito que demorei para escrever essas palavras. Saibam, porém, que não foi por pouco. Lembrar-me da dor, essa em especial, faz doer mais. Fato esse ridículo, infantil, mas ante a mais débil pontada sempre fui um menino, um dramático, quase um italiano. Mas cá entre nós, nada mais humilha que a dor de cotovelo. A que acomete o grosso frente o craque, o genial, então… Para mim sempre descamba para o existencial!

Os primórdios dessa exclusão remontam ao primeiro bullying: a formação dos times no colégio. Era um clássico certamente pré-histórico, onde quem bramia a clava com mais histeria era o qualificado para a caça. Nos tempos de escola, os capitães iam escolhendo um a um, e à medida que o faziam, fuzilavam os eternamente últimos. Era uma desgraceira.

Melhor seria se eu me resignasse. Ou então, se detestasse o futebol, se aceitasse simplesmente que a gorducha não queria ronronar no peito do meu pé, que a pelota era indiferente à débil e grosseira potência do meu metatarso. A bola é uma gentil vagabunda, quer saber de anatomia? Ah, vá.

Mas esse é o país do futebol. Está em todo canto, na nossa casa, na nossa mesa. Estava nas histórias do meu pai craque. Estava nas veias do primogênito. Mas o caçula era uma besta! Bem, aos infernos com as coisas de bola, decidi. Que alívio optar pela ignorância: dor de cabeça na educação física, conjuntivite na copa. Só mais uns 15 anos e pronto! Seria contador.

Foi naquele mês, creio. Fui tomar a benção do avô, e pego pelo golpe de vista, mirei a telefunken. Era uma reportagem sobre alguém falando alguma coisa que não interessa nem a meia dúzia. Mas o vovô estava nesse público ermo. E eu vi.

Vi o lance do Pelé contra o Uruguai. Houve inúmeros, mas nenhum tão atemporal como aquele! E bastou eu ter testemunhado aquele xis mágico, impossível, absurdo e divino. Tentei fechar o olho, mas era tarde. Chorei copiosamente o primeiro corno. Chorei o lance, chorei a maldita educação física, chorei nunca ter sido escolhido pelo menos o penúltimo jogador, chorei não ter sido escolhido por deus. Sei que é exagerado, mas essa preterição colocou minha fé em cheque.

De feliz ignorante passei a grosso, perna-de-pau, café com leite. E eu vi o que podia e não podia de Pelé e seu trato brutal, de Zico e sua fragilidade milimétrica, a blasfêmia de Sócrates, o explicitamente pornográfico elástico de Rivelino. Quanto mais assistia, mais sentia minha galhada. Aquela pelota desgraçada ia por todos, lambia todo mundo, putana.

Passado os anos 80, Lazaroni me permitiu respirar. Até Telê Santana me aplicar novamente um Mata-Leão com um time formidável de amantes, primórdio de novas formas de se envolver a gorducha, com malabarismos miraculosos, incríveis. Os Ronaldos, além de formidáveis, mais novos e enxutos, me estamparam que nem mais idade eu tinha para lamentar o corno. Eu já estava entregue, batido. Nunca mais pedi a benção a vovô.

*Rodrigo Arruda é jornalista

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3 pensamentos sobre “O craque e a dor de cotovelo

  1. Como diria o influenciador Roberto Bolaños: Preferia ter ido ver o filme do Pelé! Futebol é paixão, emoção e todos os pernas de pau e afins hoje podem se deleitar em seus videogames ou acompanhando os jogos e acredito que sentindo o mesmo tipo de alegria e satisfação quando dão o tiro certeiro e vencem o adversário. Bela crônica. Abraços!

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