Copa do Mundo/Futebol

FBI x FIFA: Justiça ou interesse?

Uma matéria publicada no UOL revelou que John Shulman, especialista em mediação de negociações, cofundador do Centro para a Negociação e a Justiça dos EUA, formado em direito pela Universidade de Harvard, acredita que a intervenção do FBI nas investigações da FIFA “não teve cunho legal, mas geopolítico”.

De acordo com ele, há interesses dos Estados Unidos. Ele diz: “São os EUA mobilizando seu aparato legal interno em prol de questões geopolíticas. No caso, para colocar pressão na Rússia, com quem o país tem tido problemas recentemente, e no Qatar, onde também existem questões geopolíticas”. Além disso, o país também tentaria manter o poder em uma instituição onde, por incrível que pareça, eles ainda não tinham.

Conspiração, talvez? Evidentemente, conhecemos bem os ‘interesses norteamericanos’ em política internacional. Porém, existem pontos que temos de levar em conta antes de realizarmos análises do tipo.

1) Há o interesse de realizar a Copa do Mundo nos EUA, muito em breve, com o intuito de alavancar o esporte no país, que está em constante crescimento. A visibilidade do futebol começou a crescer na terra do Tio Sam, evidentemente, em todos os setores.

2) Um argumento de defesa para a entrada do FBI na investigação, foi a realização de negociação ilícita em território norteamericano, justificando legalmente a intervenção do FBI. Além disso, há o agravante dos contratos ilegais de empresas que movimentaram dinheiro em bancos norteamericanos, como aconteceu com o brasileiro J. Hawilla, dono da Traffic, com relação criminosa envolvendo José Maria Marin e Ricardo Teixeira.

3) Em 2014, Blatter queria passar uma imagem – falsa – de que a FIFA não escondia nada, e contratou Michael García, ex-promotor federal dos EUA para investigar casos internos. Ele apresentou um relatório imenso, totalmente censurado pela organização, em sua divulgação. O conteúdo divulgado pela FIFA foi um resumo provando que não havia corrupção na entidade. García revoltou-se, pois tudo não passava de mentira. Blatter esperava subornar, como sempre, o investigador, mas ele preferiu manter sua reputação. García renunciou ao cargo do comitê de ética da entidade. Coincidentemente, a recente ação do FBI causou impacto justamente momentos antes da reeleição de Blatter, endossada por um juiz federal norteamericano ligado ao García.

fifa

Os Estados Unidos, apesar dos pesares, desenvolveram um método de incentivo ao esporte no país, há décadas, que funciona de forma efetiva. Há interferência da iniciativa privada? Sim. Há um sistema monetário que funciona com base em vendas de franquias? Sim. Mas a importância do esporte para a população é muito maior que mero entretenimento ou business. E apesar de ser um braço do capital no país, acaba trazendo benefícios imensos à nação. Diferente do que acontece por aqui, com nossas entidades.

Voltando ao caso FIFA, a organização arrecada o maior número de verba esportiva do mundo, com a realização do evento mais lucrativo do planeta (a Copa do Mundo), e está registrada como uma instituição não governamental. Ela não precisa pagar impostos, não precisa dar transparência fiscal, etc, etc…

A FIFA é a instituição esportiva mais corrupta do mundo desde os tempos de João Havelange, que teve como braço direito o Sr. Sepp Blatter. Ele era a continuidade do poder na entidade. E ele ganhou a eleição de 1998, desde então, acusado por métodos ilícitos de compra de votos, auxiliado por Mohammed bin Hammam. Este mesmo senhor é o acusado de ‘favorecer’ a eleição do Catar como sede da Copa em 2022.

A Interpol investiga esses casos de corrupção desde 2011, após denúncias do representante da candidatura da Inglaterra para a Copa de 2018, que recebeu suborno dos membros do comitê. Claro que o país da Rainha não levou, o país eleito foi a Rússia.

Apesar de uma possível teoria da conspiração de dominação Yankee e dos interesses norteamericanos que conhecemos bem, não podemos ser unilaterais. O FBI, além de finalmente tomar a linha de frente em uma ação contra a entidade intocável, deu proteção para Phaedra Almajid, ex-assessora de comunicação da candidatura do Catar que denunciou todo o esquema ilícito, que está muito além do esporte. Ela estava sendo ameaçada por todos os lados e finalmente teve um suporte. Phaedra, simplesmente, presenciou os subornos, denunciou e foi convidada a se retirar do país.

Vale lembrar que o FBI, finalmente, está atendendo aos apelos da Interpol, que trava uma batalha contra Blatter desde 1998, sem sucesso. A inserção de García, feita pelo próprio Blatter, foi um tiro no pé. Nem todos são subornáveis, e o Sr. Sepp aprendeu isso do método mais difícil.

Infelizmente, o presidente ditador da FIFA sempre se esquivou de todas as denúncias. Ele é inteligente demais, até mesmo para o FBI e para a Interpol.

Após tantos anos, abusos de poder, interferência política em diversos países, impunidade e envolvimento econômico global, toda ajuda é bem vinda. O FBI pode até carregar os interesses de seu país envolvidos por trás de tudo isso, mas enquanto nenhum outro interesse for maior que a corrupção existente, os fãs do esporte, ou até mesmo os cidadãos que nunca assistiram a um jogo de futebol na vida, serão apenas espectadores de um esporte onde o gol é um mero e insignificante detalhe.

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