Brasileiro/Futebol

Muricy Ramalho sofre por não conseguir incendiar o São Paulo

Criticar o técnico Muricy Ramalho após a paulada que o São Paulo levou do Palmeiras é fácil. Mas quero propor uma discussão mais ampla sobre o momento da carreira deste vitorioso treinador. Muricy sempre foi um cara explosivo, emocional, vibrante, sem freio nas línguas. Foi assim como atleta e continuou sendo como técnico. Os anos de convívio com o eterno Mestre Telê Santana renderam muitas lições ao pupilo, que construiu uma trajetória de sucesso no futebol.

Entre 1993 e 2000, Muricy passou por clubes do interior paulista e de times na China e no México, conquistando títulos nos dois países,  além, claro da primeira passagem pelo Tricolor Paulista, onde conquistou a extinta Conmebol de 1994. A partir de 2001, quando chegou ao Náutico, todo time que Muricy dirigiu com liberdade e tempo necessários para implantar sua filosofia, foi campeão (Náutico, Internacional, São Caetano, Fluminense, Santos e São Paulo). Já tem em seu currículo sete títulos estaduais, quatro Brasileiros, uma Libertadores e uma Recopa.

A vibração e a intensidade marcaram a carreira vitoriosa de Muricy. Mas ele anda cada vez mais distante disso. Foto: Getty Images

 

Uma marca dos trabalhos de Muricy sempre foi a força defensiva e o intenso trabalho com bolas paradas, o chamado Muricybol pejorativamente pelos torcedores. As equipes que comanda sempre apresentam consistência, doação e muita entrega. Seu lema sempre foi o trabalho. A honestidade e a falta de traquejo para lidar com os bastidores o fez recusar o convite para dirigir a Seleção Brasileira.

Voltou ao São Paulo em meados de 2013 com a dura missão de livrar o time do rebaixamento. Não só conseguiu, como no ano seguinte comandou uma impressionante arrancada no Brasileirão que garantiu o vice-campeonato ao Tricolor. A expectativa para 2015 era a melhor possível. O elenco estava reformulado e com ganas de voltar a ganhar. O time disputaria a Libertadores, xodó no Morumbi. Rogério Ceni havia decidido adiar a aposentadoria. Novos reforços foram contratados.

Mas o rendimento na atual temporada, até o momento, está muito abaixo da expectativa criada. Apesar de liderar com folga o seu grupo no Paulistinha (todos os grandes estão passeando no estadual) e ter vencido o San Lorenzo no primeiro confronto direto com os argentinos pela Libertadores, o time não ganhou um clássico sequer. Pior, tomou um baile tático do Corinthians duas vezes, viu o Palmeiras deitar e rolar e empatou com o Santos tomando um sufoco danado.

Abatimento toma conta de Muricy e dos jogadores. Foto: Getty Images

Muricy é acusado de não treinar tanto quanto fazia antigamente, de não conseguir dar padrão tático ao time, de estar desmotivado, de não vibrar mais à beira do gramado e aceitar passivamente a falta de culhões de seus jogadores em campo (o excesso de zelo e respeito entre o elenco já foi citado pelo ídolo Rogério Ceni e por outros atletas que estão ou já passaram pelo time).

Vejo a questão com alguns pontos relevantes:

– Muricy teve recentes problemas de saúde e acusou o golpe. O treinador não quer definhar no banco de reservas e não poder aproveitar a família, os amigos, como acontecera com Telê.

– A briga política interna no clube prejudica o trabalho em campo. Enquanto uma ala é favorável a Muricy, outra, ligada ao presidente Carlos Miguel Aidar, já queria ter trocado o comando do time. As cobranças públicas ao treinador também desgastaram a relação, que deveria ser de confiança.

– O elenco do São Paulo, no papel, é muito bom. Mas o time não tem correspondido e dá fragilidade emocional. Não há um grito de indignação sequer, todos encaram com superioridade. Jogadores considerados craques, como Ganso e Luís Fabiano, estão fugindo da responsabilidade. Pato tem feito bons jogos, mas também nunca foi sinônimo de raça e vontade, além de, até agora, não ser decisivo em um grande jogo. Muricy e a diretoria deveriam cobrar diretamente esses ateltas e, até, afasta-los do time titular.

– Falta de resultados em grandes jogos. Time/técnico/diretoria/torcida têm se conformado com as derrotas. “Se perder, mas jogar bem até dá para aceitar, o que não dá é para perder sem jogar nada.” Esta é uma das frases mais ditas ultimamente.

Muricy tem sofrido muito porque não consegue mais incendiar seu elenco de jogadores. Quando contou com Kaká no ano passado, o astro fazia esse papel de influenciar positivamente os colegas (maior contribuição do meia na segunda passagem foi emocional, porque tecnicamente não chegou a apresentar um grande futebol no Morumbi). O treinador chegou a entregar o cargo após a derrota no último Choque-Rei, mas foi mantido. Pelo menos até o fim da participação do time na Libertadores. E mais, se o time chegar à final e perder, Muricy corre o risco de demissão. Se ele não se apegar ao seu mantra de trabalho e a equipe não retomar o caminho das conquistas, será um triste fim de sua passagem pelo time que tanto ama.

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