Blues/Entrevistas/Música

Igor Prado Band comemora 15 anos e lança álbum da mais pura raiz bluseira

“Se realmente você traçar os objetivos e persistir, planejar, focar mesmo, consegue tudo”. Com esse pensamento, humildade e muito talento, Igor Prado conseguiu traçar uma carreira sólida no cenário do Blues nacional e internacional. Completando 15 anos de estrada com sua banda, a Igor Prado Band, o guitarrista de São Bernardo do Campo, no ABC Paulista, é hoje um dos músicos brasileiros mais reconhecidos e respeitados nos Estados Unidos, a terra natal do Blues. E para celebrar essa vitoriosa trajetória, a banda lança o seu sexto álbum, “Way Down South”, com o selo da Delta Groove Music, o maior selo norte-americano do gênero.

Foto: Divulgação

 

“O repertório é basicamente Blues & R&B, gravamos alguns clássicos do gênero de artistas que nos influenciaram muito como Muddy Waters, Elmore James, Lightnin Slim, Long John Hunter, Lowell Fulson, Joe Tex, Ike Turner & Otis Rush entre outros. Entre os convidados temos a participação de Kim Wilson, Rod Piazza e o Mud Morganfield (Filho de Muddy Waters) entre vários outros a lista é longa!”, explica Igor Prado, em entrevista exclusiva ao Fut’n’Roll. O disco mal saiu do forno já vem agitando o mercado. “Way Down South” já ficou em terceiro lugar no rankig das rádios americanas em Fevereiro de 2015 (Living Blues Chart). No Brasil, a Igor Prado Band tem contrato com a Chico Blues Records.

 

E a agenda da banda, composta por Igor nos vocais e na guitarra, Yuri Prado, na batera, Rodrigo Mantovani, no baixo elétrico e acústico, e Denilson Martins, no sax, já está repleta de shows e festivais para apresentar o novo trabalho pelas terras do Tio Sam e pela Europa. “Não sei se numa próxima “vida” terei uma banda tão boa quanto essa, então tenho que aproveitar!”, revela Igor, sem economizar nos elogios aos parceiros.

 

Canhoto, Igor tem um estilo peculiar de tocar. A exemplo de mestres como Albert King e Otis Rush, ele desenvolveu a técnica de usar a guitarra padronizada para destros invertida, sem trocar a ordem das cordas, como fazem alguns canhotos, como Paul McCartney, por exemplo. “Quando eu comecei a pegar o violão p/ brincar eu sempre puxava o de destro e invertia, meu pai tocava um pouco de violão também desse jeito, aí aprendi os primeiros acordes assim, uns anos depois entrei no Conservatório Musical de São Caetano e o professor me obrigou a inverter as cordas estudei quase um ano assim e desisti dos dois, do conservatório e de tocar da forma “correta”… não me sentia confortável assim aí desencanei mesmo, sem medo de ser feliz”, explica.

Belgium Festival - 2014

Foto: Marcos Hermans

 

Bem esclarecido sobre as dificuldades que a profissão impõe aos músicos, Igor Prado acredita que o comodismo de muitos profissionais faz com que a batalha seja mais dura. “O mundo mudou, antigamente era diferente, hoje vc tem que bater o escanteio, correr na área, cabecear, fazer o gol e ainda voltar correndo pra marcar atrás. Antigamente existiam gravadoras que davam o suporte, existiam mais empresários no meio, muito menos competição e mais espaço. Hoje em dia o artista tem que entender o mercado e saber fazer tudo da melhor forma possível, não só tocar o instrumento, senão não sobrevive, e é assim na Europa, nos EUA, etc…”.

 

Acompanhe a entrevista na íntegra e curta um teaser do álbum “Way Down South”.

 

Fut’n’Roll – Igor, vamos começar falando de uma peculiaridade do seu som. Você é canhoto e toca com a guitarra invertida, ou seja, o instrumento padronizado para destros de cabeça para baixo. Como você desenvolveu essa técnica para tocar?

Igor Prado – Quando eu comecei a pegar o violão p/ brincar eu sempre puxava o de destro e invertia, meu pai tocava um pouco de violão também desse jeito, aí aprendi os primeiros acordes assim, uns anos depois entrei no Conservatório Musical de São Caetano e o professor me obrigou a inverter as cordas estudei quase um ano assim e desisti dos dois, do conservatório e de tocar da forma “correta”, hehehe…

 

FnR – Normalmente os canhotos invertem o instrumento e as cordas. Você já tentou fazer isso ou preferiu apostar no seu estilo?

IP – Como disse anteriormente, eu re-aprendi todos os acordes básicos da forma normal mas não me sentia confortável assim aí desencanei mesmo, sem medo de ser feliz.

 

FnR – Sinceramente desconheço, mas existe algum outro músico que toque assim?

IP – Sim vários, no Blues, Albert King, Otis Rush, Lefty Diz, no Swing-Jazz o mestre Bill Jennings, numa onda mais Gospel, Church, R&B tem o Dickie Thompson que eu gosto também. Muitos acham que o Hendrix tocava assim pq ele usava uma guitarra invertida mas a ordem das cordas era da maneira convencional.

 

FnR – E como você começou a tocar, e de onde surgiu a relação com o Blues, foi influência de alguém da família? Estudou em algum lugar ou é totalmente autodidata?

IP – Eu e o meu irmão Yuri Prado, que é baterista da banda, sempre tivemos uma proximidade c/ música de qualidade desde muito novos, eu lembro que meu pai ouvia muito Little Richard, Chuck Berry quando a gente tinha tipo 4, 5 anos de idade.

Mais tarde a gente descobriu um vizinho que acho que foi a influência mais forte na música, o Chico Blues, ele é um dos maiores colecionadores de Blues da América do Sul, então começamos a frequentar a casa dele, pesquisar, e montamos uma banda de Blues qdo tínhamos 14, 15 anos. Daí pra frente vc já sabe o que aconteceu né, hehehe…

 

FnR – Infelizmente aqui no Brasil, temos muitos talentos, mas poucos conseguem realmente viver de música. Quais foram as maiores dificuldades para assumir a música como profissão até chegar ao reconhecimento internacional que você tem hoje?

IP – Eu acho que isso não é só no Brasil em todo lugar do mundo não é fácil, mas eu acho que se realmente vc traçar os objetivos e persistir, planejar, focar mesmo, vc consegue tudo. Acho que na música e em qualquer profissão é assim.

A gente trabalhou e trabalha duro, vive isso intensamente, 24hrs e sempre foi assim, dificuldades sempre aparecem como eu disse em todos os anos, mas acho que perseverança + foco e dedicação ultrapassa qualquer dificuldade.

 

FnR – Há quantos anos você toca?

IP – Começei a brincar c/ o instrumento com uns 12, 13 anos, fui tocar o primeiro show profissional com 16 pra 17 anos, agora a banda está fazendo 15 anos de carreira, essa é um ano muito especial pra gente!

Igor Prado Band tem uma vasta experiência internacional. Na foto, o grupo tocando com Mud Morganfield, filho de Muddy Waters. Foto: Chico Blues

 

FnR – Conta um pouco sobre a sua banda, Igor Prado Band, os integrantes, enfim a história do grupo.

IP – Bom eu e o Yuri, irmãos, estivemos juntos tocando desde sempre. O contrabaixista que é uma espécie de irmão-postiço mesmo, isso não sou eu que falo, conheci o Rodrigo Mantovani creio que ele tinha uns 15 anos estava tocando com o gaitista Sérgio Duarte no antigo Mr. Blues Bar, em São Paulo, aí depois de uns 3 anos a gente começou a trocar ideia sobre, sons, sobre Blues e batia muito os gostos. A partir daí montamos a banda (Igor Prado Band) e ele é meio que “sócio-fundador” também, hehehe… Toca baixo elétrico e acústico como os mestres das antigas, hoje em dia ele não é apenas baixista mas participa do processo de produção musical, mixagem e masterização dos álbuns.

O Denilson Martins, o Saxofonista, conhecemos ele na época da Prado Blues Band que ele veio fazer um sub para o Sax barítono da época, desde lá eu já conseguia enxergar um potencial absurdo nele, o ano passado tive o privilégio de produzir seu primeiro álbum solo “Denilson BIG D Martins”. Ele é uma pessoa muito iluminada tem um futuro brilhante pela frente, um dos maiores saxofonistas do mundo nessa onda sem dúvida.

Não sei se numa próxima “vida” terei uma banda tão boa quanto essa então tenho que aproveitar! hehehe…

 

FnR – Montar uma banda própria foi uma necessidade que deu certo ou você sempre teve essa ideia em mente?

IP – Ah a gente sempre gostou de montar bandas, formações diferentes, acho que sempre curtimos esse lance de banda e tudo que envolve. Sempre gostamos de ensaios, gravações, arranjos, etc…

 

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Foto: Alex_Rodriguez

 

FnR – Você já lançou cinco álbuns, tocou com grandes mestres do Blues, tem contrato com  o maior selo de blues dos EUA, a Delta Groove. Como foi essa jornada de consolidação no mercado norte-americano?

IP – Eu creio que esse contato começou pela internet e fazendo um intercâmbio com a galera de fora, a gente sempre teve a maior humildade e respeito aos músicos americanos, creio que cada um pode ensinar algo diferente, é uma música de raiz deles só o fato de estarem no circuito americano, só o fato do cara ter visto os mestres ter sido influenciado diretamente eu acho que conta muito. Mas nossa relação mais próxima com o mercado americano começou depois que gravamos um álbum em conjunto com o cantor e gaitista Lynwood Slim, ele ensinou muita coisa pra gente e rodamos muito praticamente tocando juntos, ele apresentou muitos artistas de lá também e minhas primeiras experiências nos EUA devo a ele. Infelizmente o Slim faleceu o ano passado, foi triste, todo mundo sofreu muito aqui, pois éramos muito ligados, conversávamos via Skype toda semana.

 

 

FnR – No Brasil, o movimento blueseiro tem grandes nomes. O que falta na sua opinião para que o gênero ganhe mais reconhecimento, respeito e exposição nas rádios, nas TVs e nos grandes veículos de mídia?

IP – Acho que o que falta é o mesmo que falta para a Música Brasileira de Qualidade, a Bossa  Nova, o Jazz, o Choro ter mais reconhecimento, exposição nas rádios e TV. Hoje no mainstream parece que se nivelou por baixo e é isso que estão enfiando abaixo nas pessoas, eu creio que não é o problema só do Blues. Mas mesmo diante disso temos um circuito interessante de Jazz & Blues no País.

 

FnR – Falta mais união entre os bluseiros brasileiros para fortalecer o movimento?

IP – Essa é uma pergunta que tem um sim e não. Eu creio que hoje em dia tem poucos artistas realmente profissionais que sabem o que querem que buscam sempre melhorar, aprender mais e mais, lançar algo novo, pesquisar, montar um show, montar um álbum, montar uma estratégia de trabalho. Reclama-se muito de tudo e de todos, mas há um acomodamento também.

O mundo mudou, antigamente era diferente, hoje vc tem que bater o escanteio, correr na área, cabecear, fazer o gol e ainda voltar correndo pra marcar atrás. Antigamente existiam gravadoras que davam o suporte, existiam mais empresários no meio, muito menos competição e mais espaço. Hoje em dia o artista tem que entender o mercado e saber fazer tudo da melhor forma possível, não só tocar o instrumento, senão não sobrevive, e é assim na Europa, nos EUA, etc… A gente vê e tem contato direto com os músicos de lá.

Da mesma forma que tem esse ponto negativo existe um ponto positivo da galera estar se unindo em projetos sociais que eu acho muito legal tb.

Igor Prado Band_Vintage Pic_By Marcelo Pretto

Igor Prado Band_Vintage Foto: Marcelo Pretto

 

FnR – E este ano você e sua banda estão lançando um novo álbum. Fala um pouco sobre esse trabalho, qual o repertório que vocês trazem, as participações especiais e suas perspectivas para o disco.

IP – Sim este ano estamos comemorando 15 anos da banda com um disco que é praticamente uma celebração desses anos, tem vários convidados especiais e está sendo lançando nos EUA por um selo grande, a Delta Groove Music, com distribuição larga nos EUA, Europa & Asia. É mais um grande objetivo alcançado estamos muito felizes com o álbum, que bateu posição #3 das rádios americanas em Fevereiro de 2015 (Living Blues Chart).

O repertório é basicamente Blues & R&B, gravamos alguns clássicos do gênero de artistas que nos influenciaram muito como Muddy Waters, Elmore James, Lightnin Slim, Long John Hunter, Lowell Fulson, Joe Tex, Ike Turner & Otis Rush entre outros. Entre os convidados temos a participação de Kim Wilson, Rod Piazza e o Mud Morganfield (Filho de Muddy Waters) entre vários outros a lista é longa!

 

FnR – Você já tem uma turnê de divulgação do novo disco?

IP – Sim em Maio estaremos nos EUA, faremos Memphis, California e Texas, teremos a honra de tocar no Doheny Blues Festival, um dos maiores nos EUA ao lado de monstros da música americana como Bonnie Raitt, Paul Rodgers (meu cantor favorito de Rock), Taj Mahal, Los Lobos, etc…

E em Junho/Julho faremos alguns shows na Europa entre eles o Festival Blues Cazorla, o maior da Espanha, também iremos pela primeira vez para a Rússia e em Setembro voltamos nos EUA p/ mais alguns shows de lançamento do álbum.

 

 

FnR – Vocês pensam em lançar um DVD com os grandes sucessos da banda?

IP – Se algum dia a gente tiver algum grande sucesso a gente lança, hahaha… brincadeira…

Eu acho legal a idéia do DVD talvez seria uma p/ o ano que vem, quem sabe!

 

FnR – Uma curiosidade: como é a sua relação com as redes sociais? A divulgação digital compensa a falta de exposição nas grandes mídias? E o retorno com o público?

IP – Ah eu sou da geração rede sociais a gente cresceu nesse ambiente não tem como fugir, acho que a divulgação digital é mais direcionada, os fãs ficam sempre antenados é um contato direto as grandes mídias são legais p/ vc fazer nossos fãs gente que normalmente não está habituada a escutar esse tipo de música, mas qdo tem o contato gosta muito. Então o retorno de televisão que a gente faz sempre é muito legal!

 

FnR – Aproveitando o gancho do nosso site, você curte, acompanha futebol? Se sim, qual o seu time e qual a loucura que você já fez como torcedor para acompanhar seu time?

IP – Adoro futebol, atualmente temos que admitir que o futebol brasileiro não é mais o topo do mundo e talvez repensar toda a estrutura aqui, bom essa conversa é longa né, vamos encurtar…

Quando era mais novo eu era Corintiano roxo, chegava a quase chorar quando o time perdia e tal, mas hoje em dia eu acompanho meio de longe, sei lá o futebol mudou muito né.

 

FnR – E para terminarmos, qual o seu conselho para quem quer entrar na música, independente da idade?

IP – É o que eu falei no começo da entrevista, mas essa ordem fica melhor: “traçar os objetivos, planejar, focar e persistir”.

 

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