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‘Memórias de uma Copa no Brasil’ reúne crônicas sobre o evento esportivo que tomou conta do país no último ano, através da visão de um torcedor apaixonado

O ano é 2014. Aos apaixonados por futebol, ano de Copa. Aos politicamente engajados, ano de eleições. A quem não vive futebol e política de forma pulsante, apenas mais um ano como tantos outros. Imagino uma dessas pessoas citadas em meu último exemplo, caminhando pela Av. Paulista após terminar seu exaustivo turno de trabalho, envolvida em trajes sociais desconfortáveis e com bolhas nos pés, adentrando em uma livraria para encontrar nas obras literárias a magia cultural que talvez não encontre na rotina do ganha-pão. Na prateleira, um lançamento. Autor pouco conhecido, livro reunindo crônicas sobre a Copa do Mundo, misturando, de forma brilhante, relatos de um verdadeiro torcedor, acrescentando pitadas de ironias políticas e outras tantas beliscadas na ferida de grandes personalidades. Basta passar umas páginas que o leitor em questão, pouco interessado nesses temas, passa a se envolver com a leitura. Essa, na minha opinião, é a grande magia do livro Memórias de uma Copa no Brasil, uma compilação das crônicas despretensiosas de Francisco Bicudo.

Capa do livro 'Memórias de uma Copa do Brasil', disponível nas melhores livrarias

Capa do livro ‘Memórias de uma Copa do Brasil’, disponível nas melhores livrarias

“Quando comecei a escrever e postar o relatos no Facebook, o que eu queria era apenas e tão somente, sem qualquer compromisso mais rigoroso, compartilhar algumas experiências ‘copísticas’ que, imaginava, poderiam ser interessantes e curiosas, também para outros amigos e conhecidos”, revelou o autor.

Este que vos escreve teve a oportunidade de acompanhar todo o processo que levou Chico Bicudo – como é conhecido popularmente -, a reunir suas crônicas em uma publicação. Jornalista e professor universitário, o agora autor ministrou minhas melhores aulas da Universidade. Sim, sou um ex-aluno admirador, porém, com senso crítico isento de cumplicidade. Justamente por ter visto os textos que acompanhava diariamente em seu Facebook, durante a Copa, serem reunidos em um livro vendido nas maiores livrarias do Brasil, posso dizer com propriedade que Chico Bicudo crava seu nome na literatura esportiva nacional. Suas impressões humanas – nada de especialistas de mesas redondas -, pessoais e cativantes, acabam nos trazendo à tona toda a exaltação vivida no período da Copa em terras tupiniquins. “Sempre gostei muito de escrever. Sou ainda apaixonado por futebol e por Copa do Mundo. Costurei os dois amores e foi assim que tudo começou, de forma bastante espontânea. Simples, natural, sem qualquer pretensão maior. Era o desejo de conversar sobre aquele momento tão especial e marcante com o público que fazia parte da minha rede social”, explicou.

A simplicidade narrativa, a troca de passe textual com assuntos de política, economia e afins, a inserção de dramas vividos por pessoas reais, como a luta por um ingresso, a emoção de ver, ao lado dos filhos, Messi jogar e a tristeza da goleada sofrida pelo Brasil, permite ao leitor uma viagem quase que carnal ao fatídico meio de 2014. O trecho a seguir, retirado da crônica do dia 19 de junho, intitulada “Duas bolas, dois gols. Luis Suárez”, é possível notar exatamente a proposta de Chico: preciso na narrativa da partida entre Uruguai e Inglaterra, na Arena de Itaquera, crítico social e, o mais importante, um torcedor empolgado.

“[…O estádio é bonito. Belíssimo. Suntuoso. Caminhos de mármore. A arquibancada provisória é bem provisória mesmo. Tem goteiras. Remendos à vista. O Castelão é mais caldeirão. Encontro um santista com uns três metros de altura por quatro de largura. Verdadeiro armário. “É nóis, peixe. Se precisar de alguma coisa é só me chamar”. Estou sossegado. Segurança particular. De respeito. Lugares numerados também respeitados. Visão bacana, ligeiramente prejudicada por uma grade de ferro. Nos lances mais próximos do escanteio, preciso esticar o pescoço. Esforço mínimo para quem está acostumado a ver jogos na Vila Belmiro, onde há festival de pontos cegos. O frio é um capítulo à parte. De rachar. Cortante. Venta. A sensação térmica é de oito graus. Não sinto mais a ponta do nariz. As mãos estão roxas. Mas tem inglês com bermuda e camiseta regata. E uma coleção de copos de cerveja. Deu até para encarar a fila da lanchonete. Sanduíche de peito de peru com coca-cola. Dezoito mangos. DEZOITO. Preço padrão FIFA. Estamos atrás do gol onde Luis Suárez vai resolver o jogo, onde a torcida do Uruguai é maioria. Times em campo. “Soooooooy Celeste! Soooooooy Celeste!”. Bom. Temos uma torcida de futebol. Os ingleses respondem e urram. “England”! Bom também. Temos duas torcidas de futebol. A moçada começa a bater os pés no chão. “Está balançando, vai cair”. Hinos cantados a plenos pulmões. Os colombianos, que venceram a Costa do Marfim por 2 x 1, já tinham dado mais um show. Quando são os irmãos da América, é espetacular. E é mesmo. Maravilhoso. Brasileiros cantando à capela? É brega. Patriotada. Nelson, por favor, afasta da gente esse complexo de vira-latas….]”

Os relatos diários nas redes sociais passaram a ser elogiados por todos, com centenas de ‘likes’ e muito engajamento, para a surpresa do mesmo. “Em dois ou três dias, além das muitas curtidas e comentários, comecei a receber incentivos do tipo ‘Chico, está sendo muito bacana acompanhar a Copa por meio do seu olhar, continue, não pare’; outros diziam ‘já estou esperando o de amanhã’. Percebi que rapidamente havia sido criado um vínculo bem forte, que havia um terreno fértil, uma priviliegiada relação de afeto. Entendi que deveria ser fiel e honesto com esse meu público, que estava tratando meus relatos com tanto carinho e respeito. Seguimos juntos durante os trinta dias de competição, cada vez mais próximos. Foi ótimo”, relatou Bicudo.

Após o sucesso na rede de Zuckerberg e inúmeras motivações, um conselho em especial deixou-o consciente do que suas crônicas poderiam alcançar. “A ideia da publicação foi de uma prima minha, uma das grandes entusiastas das crônicas, que não perdia uma. Ela disse ‘esse material não pode se perder, você precisa guardar e publicar tudo isso’. E lançou a palavra de ordem: ‘Publica, Chico!’, generosamente abraçada por muitos outros leitores”, contou. E foi justamente com essa satisfação de seus leitores, que seus textos começaram a ser reunidos. “Primeiro, nasceu o livro eletrônico, independente, distribuído por e-mail, mesmo, mas que já tinha conquistado razoável repercussão. Finalmente, o fantástico convite da Chiado (editora responsável pela publicação), para editar a versão impressa. Só posso agradecer”, completa.

Chico destaca que as redes também estão ajudando-o na divulgação do Memórias de uma Copa no Brasil, além da competência da equipe da editora Chiado. O mais interessante da obra é que ela agrada a todos os públicos logo nas primeiras linhas. Não é preciso ser entendido do assunto. A escrita cativante mistura vários universos em um só, o que torna o assunto principal não apenas o mote, como também o pretexto para ótimas narrativas. No dia 9 de julho, o autor escrevia sobre a goleada histórica sofrida pela seleção brasileira no dia anterior. E, assim como todos os brasileiros, sua decepção era evidente. Mesmo assim, presenteou os leitores com comparações nada comuns.

“Quando a volta de Vocês Sabem Quem era iminente e os sinais de proximidade da batalha final se acumulavam no embalo dos ‘avada kedavra’, o professor Alvo Dumbledore lustrava as varinhas mágicas, preparava os feitiços e sabiamente já alertava: ‘Harry, serão tempos difíceis’. A hecatombe vivida ontem no Mineirão mandou recado cristalino como as águas que um dia existiram no sistema Cantareira: se já não estava fácil, o futebol brasileiro vai viver tempos ainda mais difíceis. Conturbados. A ferida está purulenta. Arde. Dói. Sangra. Estamos chafurdando no volume morto. Dumbledore, no entanto, tentou antes de sua morte mostrar a Harry e seus amigos que Lord Voldemort, embora expressão máxima de um mundo triste e obscuro, não andava sozinho. Vivia acompanhado de professores das trevas, dementadores, comensais da morte, bruxos que não sabiam muito bem se estavam lá ou cá, seguidores permeados por dúvidas, agentes dissimulados. Como sou fã confesso do diretor da Escola de Magia e Feitiçaria de Hogwarts, nos acertos, desvios e contradições que ele sempre carregou, não esperem de mim porradas nos jogadores. Não vou apontar dedo para culpados. Não vou demonizá-los. Não vou queimar uma geração que, se não é espetacular, é bem boa. Se a ideia é reconstruir, refundar, resgatar o verdadeiro futebol brasileiro, e não só detonar, esse processo passa necessariamente por Thiago Silva, David Luiz, Marcelo, Luis Gustavo, Oscar, Neymar, Willian….Não vou ajudar a forjar novos Barbosas….]”

Chico Bicudo no evento de lançamento de 'Memórias de uma Copa no Brasil'

Chico Bicudo no evento de lançamento de ‘Memórias de uma Copa no Brasil’

Apesar da visão pessoal dos fatos, é a típica obra literária que nos permite relembrar dos acontecimentos, não como contam historiadores barbudos mergulhados em livros e enciclopédias – hoje, com auxílio do oráculo Google, claro -, e sim, nas passagens de um torcedor brasileiro que viveu a plenos pulmões o evento esportivo que mais amava. “Acho que a obra pode justamente, sem nem de longe esgotar o assunto, ajudar a documentar e lembrar de uma Copa que foi mesmo especial, encantadora (apesar dos 7×1). Quando alguém tiver vontade de resgatar alguma história ou jogo do Mundial, terá em Memórias de uma Copa no Brasil uma boa fonte de consulta. Além disso, e quis que fosse mesmo dessa maneira, são as falas e olhares de um torcedor, com as paixões, mudanças de humores e contradições que movem esse sujeito”, descreveu Bicudo.

Apesar de recente, Chico Bicudo já colhe frutos de seu lançamento. No próximo dia 28 de fevereiro, ocorrerá um bate-papo do autor com o jornalista Andre Hernan, do SporTV, na Livraria Martins Fontes (Paulista), das 14h às 18h, aberto ao público. Esse sucesso espontâneo motiva, não apenas Chico, como também seus leitores, que já esperam por outros lançamentos. “O livro é um enorme estímulo para continuar a escrever. A mosquinha da escrita – das crônicas em especial – me picou. Que bom! Outros livros? provavelmente. Sobre futebol? Talvez. Ou sobre política…ensaios…histórias com os filhos…crônicas a respeito da falta de água em São Paulo…sei lá. São muitas as ideias. Mas por enquanto são apenas isso. Tudo muito nebuloso, nada planejado. Sem pressa. Sem atropelar. Antes, acho que Memórias de uma Copa no Brasil ainda tem um bom caminho a percorrer”, finalizou Bicudo. Que assim seja para todos que viram no autor um pouco de si e esperam por outras tantas crônicas que nos permitam lembrar de acontecimentos, que mesmo não sendo tão bons, sejam guardados de uma forma muito mais prazerosa em nossa lembrança, ou, no caso, em nossas prateleiras.

Memórias de uma Copa no Brasil já está disponível nas grandes livrarias do Brasil (Martins Fontes, Cultura e Saraiva) e também em Portugal. Pode ser ainda comprado pelo site da editora (www.chiadoeditora.com), por R$ 28,00, ressarcidos em cada linha vencida.

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2 pensamentos sobre “‘Memórias de uma Copa no Brasil’ reúne crônicas sobre o evento esportivo que tomou conta do país no último ano, através da visão de um torcedor apaixonado

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