Brasileiro/Futebol

Falência agonizante

A postura demagógica do agora ex-presidente corintiano Mário Gobbi no caso dos ingressos para o Dérbi deste domingo, ao relativizar problemas crônicos do futebol brasileiro e se isentar de responsabilidades inerentes ao cargo que ocupou, apenas  enfraqueceu uma solicitação legítima do time de Parque São Jorge e evidenciou o cancro que assola a gestão do esporte mais popular do país

 

Acho que tal aspecto nem deveria ser destacado, mediante o cenário macambúzio traçado na coletiva concedida nesta sexta-feira pelo agora ex-presidente alvinegro, Mário Gobbi. Sou totalmente a favor de duas torcidas quando ocorre um clássico, ainda mais da grandeza de um Palmeiras e Corinthians. Durante a minha infância, esta era a regência. Arquibancadas divididas. Depois, com a inépcia e conveniência das autoridades e a gradual escalada da violência em nosso país refletida em todos os setores da sociedade, os torcedores visitantes ficaram restritos a uma nódoa, uma mancha compartilhada tanto nos estádios quanto na alma do futebol brasileiro.

“Clássico de uma torcida é a confirmação da falência do Estado, que reconhece que não possui competência para garantir a segurança das pessoas.” Um fato. Proferido imensuráveis vezes desde que a polêmica surgiu. Mas há quanto tempo que governos municipais, estaduais e federal não cumprem o que está escrito na Constituição? O direito de ir e vir no Brasil sempre foi vilipendiado. E dentro de tal contexto, limitar o Allianz Parque apenas aos palmeirenses seria a medida mais coerente dentro de um cenário tétrico. Não obstante, era totalmente legítimo que o ex-presidente corintiano brigasse e exigisse a carga dos 1.800 ingressos que o clube deveria receber. Afinal de contas, cada dirigente defende os  interesses da agremiação que representa.

O ponto fora da curva nesta discussão, o aspecto lamentável, foi o show populista e incoerente proferido por Mário Gobbi durante a entrevista coletiva. Ao tentar justificar uma reivindicação, o ex-mandatário entrou em contradição, bradou disparates e conseguiu contemporizar uma chaga que carcome a credibilidade do futebol tupiniquim.

Quando um dirigente menospreza a maledicência trazida pelas organizadas, fica claro entender a péssima qualidade do espetáculo oferecida ao público. Quando Gobbi relativiza e afirma que mortes em clássicos sempre acontecem e que o caso não é problema do Corinthians, no mínimo é possível desconfiar de uma relação promíscua construída com a Gaviões da Fiel e suspeitar que a dita cuja exerceu uma forte pressão para que as entradas fossem disponibilizadas. Ou alguém acredita que no Allianz Parque, na parte destinada aos corintianos, veremos o chamado ‘torcedor comum’?

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Gobbi: ingressos tirados do Corinthians na “calada da noite” Foto: Alan Morici

Neste ponto, inclusive, vale retratar a dissimulação do dirigente corintiano. “Quero responder ao Dr. Paulo Castilho (procurador do Ministério Público). Ele disse que o Corinthians é refém da Gaviões da Fiel. Eu acho que ele se olhou no espelho, porque quem tem competência e dever de fiscalizar torcida organizada e autorizar é o MP, e não dirigente de clube. Refém é ele, não nós. Por que ele não fecha as torcidas organizadas se ele acha que tem bandido? Eu não sou refém de ninguém, Nesses três anos, fiz aquilo que minha consciência mandou fazer, nem por isso deixei de dialogar. Mas o fato de dialogar não quer dizer que somos amigos.” No dia 1º de fevereiro de 2014, cerca de 100 torcedores invadiram o CT Joaquim Grava, onde o técnico Mano Menezes iniciava uma atividade tática com os jogadores. Durante o ato, uma faxineira foi agredida e três celulares de funcionários do clube foram roubados. Depois do protesto, a Gaviões da Fiel ainda fez ameaças ao elenco.  Em uma mensagem publicada no Twitter, os torcedores insinuaram que a situação poderia piorar caso o time não vencesse a próxima partida, que foi disputada contra a Ponte Preta. Mário Gobbi, que antes de ser presidente do Corinthians é delegado da Polícia Civil, não consegue admitir ou ao menos conceber a possibilidade de que existem bandidos em torcidas organizadas? E que a partir do momento que um clube é conivente com tais posturas ilícitas ele se torna cúmplice?

Causa estranheza a atual posição do dirigente, que no ano passado descartou a possibilidade de a equipe não jogar como uma forma de protesto pela invasão ao Centro de Treinamento. A justificativa foi de que a punição da Federação Paulista seria extremamente severa. Como a segurança física dos jogadores, um patrimônio do clube, é menos importante do que uma carga inferior a 2 mil ingressos para Gobbi bradar peremptoriamente que o Corinthians não entraria em campo se as entradas não fossem disponibilizadas?

Vale o lembrete: este convívio viperino, vil, ignóbil e pernicioso – e mais infindáveis denominações – entre organizadas e diretorias ocorre em 99% dos times (não colocarei 100% para não considerarem que sou um pessimista incondicional).

O problema das organizadas é abrangente e apenas um dos tópicos nevrálgicos que resultam na porcaria de produto oferecido ao torcedor/consumidor. O mosaico é vasto e comporta, entre tantos contratempos, incompetência organizacional dos clubes, inépcia dos dirigentes, corrupção em clubes e federações, leniência com a criminalidade e conchavos políticos sórdidos que visam interesses escusos e a manutenção eterna em cargos que mais parecem títulos de nobreza advindos do feudalismo.

No fim da entrevista coletiva, quando já tinha sido informado de que a FPF tinha liberado os ingressos, Gobbi cantou Raul Seixas e Chico Buarque, além de destacar que o Carnaval estava chegando. Alguém deveria lembrar o dirigente de que quando as pessoas não entendem a anedota, quem vira motivo de chacota é o contador da história. Mas talvez, neste caso, ele possa ficar tranquilo. Porque novamente o papel de palhaço ficou com o torcedor comum, singelamente conhecido também como cidadão de bem. Que nem piada contou.

 

Foto capa: Rodrigo Gazzanel / Estadão Conteúdo

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