Brasileiro/Futebol

Palavras no silêncio  

A ordem partiu da cúpula mais alta do jornal e o “Sr. X” ficou imbuído de escrever sobre as maravilhas indescritíveis que o futebol propicia. Matéria chavão, carne de pescoço. Sábio nas palavras e atento ao ambiente que o cercava, “X” tinha percebido, há algum tempo, que estava a um passo de ser demitido. E na serenidade daqueles que sabem como a injustiça é retratada sob inúmeras formas, entre elas o afamado bilhete azul, fez somente o que importava.

Veja bem, não tenho nada para escrever. O que eu posso fazer? Ressaltar a corrupção no futebol, destacar a desorganização dos campeonatos (tudo bem, eu sei que as coisas melhoraram, mas ainda estão longe do cenário ideal), falar do meu time que já teve épocas muito mais áureas? Pelo menos ele não está caindo pela tabela e carcomido pelos fantasmas gloriosos de épocas homéricas.

 

Antes que achem que eu estou ficando louco, não é nada disso. Amo o futebol e será assim até o meu último dia por aqui. Mas ultimamente, tanta coisa tem sido dita e os absurdos proliferam de tal forma que o melhor é ficar quieto, mesmo que uma ou duas frases possam bradar o verdadeiro valor da utilidade.

Sabe, é a precaução de não querer misturar o justo com o descartável e tudo se transformar em uma porcaria só e ser despejada no lixão ignaro.

 

Talvez pensem que eu não esteja maluco, mas sim que a noção fugiu das minhas entranhas. Um bêbado se equilibrando na linha torta do surrealismo plausível. Quer dizer, o ideal seria eu escrever uma metáfora sobre um jogador genial ou clube grande.

Mais ainda: narrar de maneira épica uma partida memorável e arrematar a história com um desfecho imprevisível, estupendo, que ressalte as virtudes do esporte bretão e infle o nosso orgulho por apreciar tanto este jogo, que carrega em si códigos de honra que muitas vezes ditam a conduta no quotidiano de uma pessoa verdadeiramente honesta e honrada.

 

Desculpem camaradas. Se estão procurando por uma epopeia, não as encontrarão nestas parcas e soçobradas linhas, sempre amparadas pelas sapientes palavras amorfas.

Mais do que escrever sobre a catarse do futebol e os seus heróis, em alguns momentos (isso, inclusive, vale para a nossa vida) devemos atentar que no meio de tanto barulho e disparates proferidos por aqueles que se julgam detentores do saber inquestionável, o silêncio e o vazio das palavras não valem ouro; tem um valor inestimável, um lirismo imensurável pela penúria dos olhos e o imediatismo das almas prolixas.

 

Os contextos são os mesmos, as ações não mudam jamais, as iniquidades perdurarão eternamente e os prognósticos sobre resultados (sempre muito mais obtusos), também.

E paradoxalmente, relatar tudo isso e os acontecimentos intrínsecos a universo é inigualável.

 

Mas chega uma hora que o silêncio é necessário e todos deveriam fazer isso. Simplesmente para observar tudo aquilo o que o nosso chauvinismo oblitera. E mais do que tudo, se precaver para não executá-los e achar que está ditando a nova ordem da crítica esportiva.

Foto: Reprodução

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