Blues/Entrevistas/Música

Guitarrista Danilo Simi vive sonho ao tocar com lenda do Blues em novo projeto

Danilo Simi, um dos talentos músicos da nova geração de bluseiros do Brasil, pode se considerar um cara de sorte. Aos 33 anos de idade, com 17 dedicados à música, teve a honra de fazer uma turnê de lançamento da banda The Real Deal Blues Band ao lado de Mud Morganfield, uma das lendas vivas do Blues e filho do não menos lendário Muddy Waters. The Real Deal foi formada há poucos meses pelos amigos Danilo Simi, Marcelo Naves, Flávio Naves, Marcos Klis e Humberto Zigler, com grandes referências ao tradicional Blues de Chicago.

“(tocar com o filho do Muddy Waters) foi como realizar um sonho impossível, entende? Mud é muito parecido com o pai, tem a mesma presença e timbre de voz marcante e claro tem personalidade própria. Só pelo fato de termos tocado com ele nessa turnê já nos sentimos realizados e ficamos ainda mais lisonjeados com os elogios que ele teceu à banda, dizendo que foi uma das melhores bandas das quais ele já tocou. Dever mais do que cumprido!!”, comemora Danilo, em entrevista ao Fut’n’Roll.

The Real Deal Blues Band e Mud Morganfield. Foto: Divulgação

 

E a The Real Deal é apenas um dos projetos aos quais Danilo está envolvido. Ele também toca com a Robson Fernandes Blues Band e os Blues Beatles, além de outras atividades, sempre envolvidas com a música. E apesar das dificuldades, Danilo não parece nenhum pouco arrependido de ter optado pela carreira musical. “Me sentindo realizado como músico, tenho que correr atrás sempre, pois a questão financeira é muito importante, afinal temos que pagar as contas, nos “virar nos trinta”, rsrsr… não pode se limitar apenas a tocar, tem que administrar a sua carreira, tocar, dar aulas, gravar, produzir, etc. Tem que exercer múltiplas funções. E ainda dizem por aí que músico não trabalha rsrs”, explica.

Acompanhe a entrevista na íntegra e aproveite para curtir o som do CD Blues Alive, gravado por Danilo Simi e o inseravável parceiro Marcelo Naves em 2013.

Fut’n’Roll – Danilo há quanto tempo você toca e como surgiu o blues na sua vida?

Danilo Simi – Comecei a dar meus primeiros passos no violão aos 16 anos. Hoje estou com 33, portanto, toco há 17 anos e profissionalmente desde 2003. O blues surgiu na minha vida de maneira súbita e impactante, creio que fazia mais ou menos um ano que eu tinha começado a tocar violão, quando vi um amigo que também tocava, fazendo algumas levadas e licks de Blues, me impressionei demais e desde daquele dia percebi que o Blues seria muito importante na minha vida.

 

FnR – Quais são suas maiores influências?

DS – Logo que descobri o Blues, tive a oportunidade de descolar alguns bons discos emprestados de um primo que dispunha de uma coleção ímpar dos mais variados estilos. Dentre os discos que ele me emprestou estavam um do Robert Johnson, outro do Lightnin Hopkins, e outro do Blind Boy Fuller, acredito que esse três foram minhas primeiras grandes influências. Mais tarde conheci Muddy Waters e toda a galera de Chicago dos anos 50, e logo depois os grandes mestres da guitarra Blues: Albert, B.B. e Freddy King, Albert Collins, Otis Rush e por aí afora. É difícil falar de influência quando se tem várias, rsrs.

 

FnR – E quando você definiu que seguiria a carreira musical? Teve alguma resistência da família? Rolou aquele papo “tudo bem, vai ser músico, mas vai fazer qual faculdade?”?

DS – Me encontrei quando comecei a tocar e quando conheci o Blues, assim acredito que sabia que seria músico desde o início disso tudo. Sempre tive muito apoio da mina família e isso é fundamental, no começo rolou um pouco de resistência por parte da minha mãe, mas aos poucos ela foi sacando que meu lance com a musica é sério e isso foi superado. Na verdade acho que ela se preocupa até hoje, mas isso é coisa de mãe, rsrs. Já do meu pai e dos meus irmãos sempre tive apoio incondicional, inclusive um dos meus irmãos, o Nicolas Simi, também é guitarrista e dos bons. Tocamos juntos em alguns projetos.

Foto: Javalim

 

FnR – No nosso papo recente com o Robson Fernandes, nós comentamos as dificuldades para o músico “sobreviver” no Brasil. Você imaginava as dificuldades que teria ao fazer essa escolha? E como tem sido o retorno nesse investimento na carreira musical?

DS – No começo não fazia ideia de como seria a carreira de um músico de Blues no Brasil e para ser sincero nem pensava nisso, queria mesmo era tocar, tinha muita sede de aprendizado e de executar as coisas que aprendia, só fui começar a sacar que teria que me profissionalizar uns quatro anos depois de ter começado, daí tive um choque de realidade rsrs. Penei um pouco, pois sempre fui muito radical, achava que tinha que conquistar as coisas somente tocando, com certeza esse é um caminho, porém, mais árduo no meu entender, mas essa foi a minha escolha e não me arrependo. Quanto ao retorno, posso dizer que é muito gratificante e que só tenho a agradecer por tudo que a música já me proporcionou, o que ela me proporciona e o que ela ainda irá me proporcionar, acho que isso sintetiza tudo.

 

FnR – Uma das coisas que citamos foi a multifuncionalidade do músico, que tem que dar aula, tocar em vários bares, com bandas diferentes, enfim. Recentemente descobrimos que você toca no Blues Beatles, na Robson Fernandes Blues Band e agora está em mais um projeto, ao lado do Marcelo Naves. Como administrar tantas atividades? É possível ainda ter uma vida social, um relacionamento?

DS – Pois é, mesmo me sentindo realizado como músico, tenho que correr atrás sempre, pois a questão financeira é muito importante, afinal temos que pagar as contas, nos “virar nos trinta”, rsrsr. Atualmente se você quiser ter uma vida bacana com música, pelo menos no meu caso e creio que é assim também com a maioria dos músicos, principalmente os de Blues, não pode se limitar apenas a tocar, tem que administrar a sua carreira, tocar, dar aulas, gravar, produzir, etc. Tem que exercer múltiplas funções. E ainda dizem por aí que músico não trabalha rsrs. É claro que é possível ter uma vida social sim, sempre sobra tempo, confesso que minha mulher reclama um pouco às vezes, mas é por uma boa causa, afinal é o meu trabalho.

 

FnR – Falando nesse novo projeto, a The Real Deal Blues Band. Como surgiu a ideia e qual é a proposta de vocês?

DS – Na verdade sou amigo do Marcelo há uns 15 anos e já tocamos juntos desde 2003. Conheço o Flávio que é primo do Marcelo desde os primórdios também rsrs e já tínhamos tocados juntos em varias ocasiões. Acho que a The Real Deal antes de qualquer coisa é uma reunião de amigos com algo em comum, o Blues. A proposta é juntar a experiência e a personalidade de cada integrante da banda, a fim de produzir um trabalho de muita qualidade, no qual damos destaque para o Blues de Chicago. Além da galera que você citou acima, ainda temos Marcos Klis no contrabaixo e Humberto Zigler na batera.

 

FnR – Qual CD nasce primeiro, o desse projeto ou do Blues Beatles?

DS – A Blues Beatles tem um pouco mais de tempo de estrada e o CD está bem adiantado, porem a The Real Deal começou com tudo, estou certo que nesse próximo ano teremos material das duas bandas sendo lançado, tanto de áudio quanto de vídeo. Podem aguardar!!

 

FnR – Tem mais alguma novidade engatilhada? rs

DS – Sim, começamos com a The Real Deal fazendo uma turnê com nada mais nada menos que Mud Morganfield e para Fevereiro já estamos com outra turnê fechada com uma grande cantora de Chicago, Demetria Taylor, será imperdível!

 

FnR – Recentemente vocês trouxeram para o Brasil o Mud Morganfield, filho de Muddy Waters. Como surgiu essa oportunidade e como foi tocar ao lado do cara que tem o Blues no DNA?

DS – O Marcelo já havia tocado com ele em uma tour pelo Nordeste no ano passado, os dois se tornaram amigos e isso facilitou muito o contato. Precisávamos de um nome de peso para a primeira tour da The Real Deal, o nome dele foi o primeiro da lista e graças a Deus deu tudo certo. Quando ouvi Muddy Waters pela primeira vez e aprendi sobre a importância que ele tem para o Blues, me senti muito feliz e logo depois triste, pois ele já havia morrido. Tocar com o seu filho para mim foi como realizar um sonho impossível, entende? Mud é muito parecido com o pai, tem a mesma presença e timbre de voz marcante e claro tem personalidade própria. Só pelo fato de termos tocado com ele nessa turnê já nos sentimos realizados e ficamos ainda mais lisonjeados com os elogios que ele teceu à banda, dizendo que foi uma das melhores bandas das quais ele já tocou. Dever mais do que cumprido!!

 

FnR – O que você tem escutado atualmente no cenário de Blues, seja no Brasil, seja internacional?

DS – Ainda continuo muito ligado às coisas que ouvia quando comecei, ou seja, Delta e Chicago Blues dos anos 30,40 e 50. Porém me agradam muito alguns artistas mais modernos como Lucky Peterson, Ronnie Earl, Kim Wilson, enfim ouço muita coisa de Blues e vira e mexe conheço algo novo dentro do estilo. Aqui no Brasil também temos ótimos trabalhos e músicos de qualidade representando o gênero, como a excelente Igor Prado Band, do meu amigo Igor Prado, como o irmão de longa data e um dos melhores instrumentistas que já conheci, Robson Fernandes, também o renomado guitarrista Nuno Mindelis e toda essa galera que está na ativa ajudando a fortalecer o Blues Brazuca.

 

FnR – O que falta para o Blues Brasileiro ter mais destaque no próprio território tupiniquim? Porque as gravadoras deixaram de apostar nesse segmento?

DS – Na verdade aqui no Brasil as grandes gravadoras nunca se interessaram pelo Blues, começamos a criar uma cena de Blues por aqui no final dos anos 80 e desde daquela época que as bandas e os músicos têm que correr atrás de apoio para realizarem seus projetos, fazer acontecer mesmo, saca? Se hoje temos uma cena bacana é graças à dedicação e amor incondicional que a maioria dos músicos que tocam Blues e alguns incentivadores possui, sendo assim acredito que isso é o principal, fazer aquilo que gosta com amor e dedicação máxima. Enquanto existirem pessoas apaixonadas e aficionadas, o Blues tupiniquim vai crescer e se fortalecer ainda mais.

 

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