Brasileiro/Futebol

Para o báratro indissociável, a postura ignara

John Locke acreditava que o senhor humano nascia sem aptidões morais ou preferências ideológicas. O contexto e as referências que o cercavam iriam formá-lo como pessoa e cidadão. O princípio, um dos mais famosos do pensador inglês, é conhecido como ‘tabula rasa’, expressão latina que significa literalmente ‘tábua raspada’, e segue o preceito de uma tela em branco a ser preenchida por meio das experiências de vida. O raciocínio é considerado por muitos como a pedra fundamental do empirismo.

O ser humano é um complexo mosaico de sentimentos, teorias e práticas. Um amálgama de contradições coerentes, que se baseia no mais absurdo para encontrar o simples. Defeitos e virtudes são nossos eternos arautos e caminham lado a lado conosco. Ou intrinsicamente. Ao mesmo tempo em que podem desanuviar o nosso olhar obtuso frente à realidade mais lancinante, também é o olho do furacão que oblitera o mais óbvio do lógico.

Tudo isso que eu escrevi acima eu pensei para explicar algo que não encontro a definitiva resposta, por mais que eu seja racional ou emotivo. O bom e velho Palmeiras se encontra exatamente na mesma situação tétrica de 2012, após o hiato de 2013 na Segunda Divisão do futebol brasileiro. Tudo bem, sejamos justos numa época de pouca ou nenhuma justeza. Quando adentrou na penúltima rodada do Brasileirão retrasado, o elenco esmeraldino – então comandada por Gilson Kleina – já estava rebaixado. Não obstante, apêndices da epopeia mais transtornável da biografia palestrina nada mais são do que meras palavras indecentes envoltas numa miríade de sentenças (seriam estas as facetas de frases ou punições?) criminosas.

Não cabe aqui defenestrar, esmiuçar, analisar, teorizar ou discursar (sentimentalmente e politicamente), com o colóquio mais eloquente, os mandos e desmandos que insistem em dobrar um gigante do futebol brasileiro que pode se curvar, mas que jamais se ajoelhará no subjugo dos oprobriosos transvestidos de beneméritos do enlevo.

As cartas estão na mesa torta e bamba há tanto tempo que a sanha incontrolável, o afã exacerbado, talvez ceguem olhares apaixonados, inocentes, desesperados ou inexperientes para a cristalina realidade. Tantos dirigentes. Mas tão menos. Na prática, diminutos. A atual situação pode simbolizar e igualmente sintetizar, com a maestria das Academias e dos grandes esquadrões do Palmeiras, o motivo de um das maiores agremiações do mundo viver a história gloriosa num presente passado catastrófico. A tragédia está longe de ser anunciada. Ela não precisou chegar porque jamais abandonou a vítima nos últimos anos.

A mudança vai além de cargos diretivos. Está mais do que provado que precisa ser conceitual. E neste ponto, que está muitos quilômetros fora da curva, a ameaça do rebaixamento é um mero detalhe que somente incautos ou mesquinhos devem se apegar. Chegou o momento de o Palmeiras preterir o reinício. É necessário muito mais. É nevrálgico começar tudo de novo, a partir do momento em que o Palmeiras deixou de ser Palmeiras.

A SEP está hibernando. E a vil criogenia já dura um bom tempo. Desde 16 de junho de 1999. Já está na hora de acordar. Como jornalista, é inadmissível aceitar o atual contexto. Como torcedor, eu me nego a acreditar que isto é o Palmeiras. A Sociedade Esportiva Palmeiras jamais esqueceu o que é vencer. E nunca deixou de ser grandiosa nas derrotas.

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