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A decadência Portuguesa, com certeza!

A Associação Portuguesa de Desportos vive hoje um dos piores momentos dos 94 anos de sua gloriosa história. Mesmo com poucos títulos em sua galeria, a Portuguesa sempre foi considerada a quinta força de São Paulo, atrás apenas do Trio de Ferro e do Santos. Chegou a disputar uma final de Brasileiro, em 1996, ganhando o apoio das maiores torcidas do Estado. Mesmo jogando a Segundona, foi comparada com o Barcelona após a belíssima campanha que terminou com o título da Série B, em 2011. A “Barcelusa” sobrou no campeonato e honrou as tradições da camisa rubro-verde, fez a torcida voltar a acreditar na força das arquibancadas do Canindé. Ao longo dos quase 100 anos de existência, teve grandes equipes, revelou e vendeu muitos craques. Chegou-se a cogitar uma mudança de nome para atrair mais torcedores e se desvincular da colônia portuguesa (ainda bem que não cometeram esse crime!). Mas uma série de erros administrativos fez com que a Lusa entrasse em parafuso, chegando ao inimaginável rebaixamento para a terceira divisão do Campeonato Brasileiro, que está prestes a acontecer (o time é o lanterna da Série B, 12 pontos atrás do primeiro time que escapa da degola), depois de o time voltar para a Série B graças ao tapetão do STJD, que livou o Fluminense o ano passado.

torcedores-da-portuguesa O STJD tirou 4 pontos da Lusa por entender que o meia Herverton não tinha condições de atuar. A medida rebaixou a Lusa e salvou o Fluminense. Protestos da torcida na sede do STJD não comoveu o tribunal. Foto: Getty Images

 

“São muitas cagadas. A maior foi a história do Heverton. Se alguém se vendeu no clube, tem de ser punido e a Portuguesa, idem. Mas quem comprou também. O problema é que ninguém investigou nada. Internamente, aceitou-se o erro ou a sacanagem. Encobriram os culpados. De qualquer forma, tinha defesa no Estatuto do Torcedor. Mas a defesa da Portuguesa foi patética, como é patético o presidente e são patéticos seus diretores. Aí, no desespero, contrataram quase 50 jogadores para jogar a Série B. Todos ruins. Trocaram de técnico várias vezes. Todos foram ruins. O desfecho só poderia ser esse. Cair para a terceira divisão”, analisa o jornalista Flávio Gomes, do canal FOX Sports, e torcedor assumido da Lusa.

 

Para ele, os culpados pela crise não estão em campo. “Contrata mal, não paga direito, faz burradas incríveis (como o caso do Luis Ricardo), tem dívidas trabalhistas, não moderniza o clube… A responsabilidade é integralmente da direção do clube”.

 

Até as categorias de base, que já foram referência nacional, de onde surgiram nomes como Djalma Santos, Enéas, Dener, Zé Roberto, entre outros, há tempos não batizam um verdadeiro craque no solo sagrado do Canindé. O sucateamento é total… Soma-se à falta de planejamento e os problemas administrativos da Lusa, a dificuldade da maioria dos times em aumentar suas receitas, principalmente da televisão, o que torna ainda mais pessimista a ideia de ver uma Lusa forte na elite do futebol, brigando por títulos. Acompanhe a entrevista exclusiva e o desabafo de Flávio Gomes ao Fut’n’Roll.

 

FnR – A Lusa caiu o ano passado por causa do STJD e hoje é lanterna da Série B. Como você vê a atual situação da Lusa, prestes a cair para a terceira divisão nacional?

Flávio Gomes – É o momento mais dramático da história do clube. Do quase paraíso, um 11° lugar improvável na Série A do ano passado, ao inferno absoluto, que é o rebaixamento para a Série C. É resultado de uma incrível sequência de equívocos. A última coisa decente que a Portuguesa fez foi o time campeão da Série B em 2011. Meio por acaso, porque não foi fruto de planejamento nenhum. Mas deu certo graças ao Jorginho e aos bons jogadores que estavam por lá e aos que foram contratados com algum critério. De lá em diante, só fizeram merda no clube. Mesmo os não rebaixamentos de 2012 e 2013 foram casuais. No primeiro, Bruno Mineiro encaixou uma série de partidas marcando gols e Dida salvou lá atrás. Em 2013, a salvação se chamou Guto Ferreira. Isso depois de começar o campeonato sem técnico, com aquele cretino do Edson Pimenta. São muitas cagadas. A maior foi a história do Heverton. Se alguém se vendeu no clube, tem de ser punido e a Portuguesa, idem. Mas quem comprou também. O problema é que ninguém investigou nada. Internamente, aceitou-se o erro ou a sacanagem. Encobriram os culpados. De qualquer forma, tinha defesa no Estatuto do Torcedor. Mas a defesa da Portuguesa foi patética, como é patético o presidente e são patéticos seus diretores. Aí, no desespero, contrataram quase 50 jogadores para jogar a Série B. Todos ruins. Trocaram de técnico várias vezes. Todos foram ruins. O desfecho só poderia ser esse. Cair para a terceira divisão.

 

FnR – Aliás, antes de seguir com a Lusa, Até quando o STJD vai definir os rumos do futebol brasileiro? todo campeonato tem um episódio de interferência diferente… Esse ano já tem a inscrição irregular do Petros pelo Corinthians. O que fazer para os campeonatos serem definidos exclusivamente no campo?

Flávio Gomes – Regras claras e uma CBF que se preocupe com o futebol brasileiro de verdade. Mas isso não existe, e fica tudo nas mãos de um tribunal ridículo, uma aberração jurídica, que julga os casos de acordo com o tamanho do clube que está sendo julgado. O STJD tem de ser extinto, a CBF tem de se responsabilizar pelo cumprimento dos regulamentos (inclusive fazendo a parte dela, que é pelo menos informar os clubes sobre a condição de jogo de seus atletas) e o futebol brasileiro precisa passar por uma ampla reforma. Sou a favor de uma intervenção federal.

 

Barcelusa encantou e conquistou a Série B em 2011. Em 38 jogos, a Portuguesa teve 23 vitórias, 13 empates e apenas 3 derrotas, marcando 82 gols, a marca de melhor ataque de toda a História da Série B. Foto: Getty Images

FnR – Nos últimos anos, temos acompanhando quedas e subidas da Lusa, mas você acha que o time tem estrutura para voltar à elite do futebol?

Flávio Gomes – Não, estrutura não tem. Mas pode voltar por circunstâncias, como já voltou duas vezes. Pode dar sorte, montar um time razoável e subir. Seria mais fácil fazer isso com algum planejamento, mas é ilusão achar que aquelas antas no Canindé são capazes de planejar qualquer coisa. Agora, mesmo na elite, nada garante que fica. A divisão de dinheiro do futebol brasileiro hoje em dia, determinada pela Globo, escolhe quem pode lutar para ser campeão, pela Libertadores, por nada e para não cair no Brasileiro. A Portuguesa, pela receita que recebe, ficará sempre no último grupo.

 

FnR – É claro que quem define as coisas em campo são os jogadores, mas qual a responsabilidade  da diretoria nas  seguidas campanhas fracas do time?

Flávio Gomes – Toda. Contrata mal, não paga direito, faz burradas incríveis (como o caso do Luis Ricardo), tem dívidas trabalhistas, não moderniza o clube… A responsabilidade é integralmente da direção do clube.

 

FnR – A Lusa sempre foi uma das grandes formadoras de jogadores de São Paulo, mas há algum tempo não revela um grande jogador. A base do clube está sucateada?

Flávio Gomes – Deve estar, porque não aparece ninguém bom. A base foi infestada por empresários e por diretores e conselheiros que acham que entendem de futebol e querem tirar uma lasquinha de negociações escusas. Um lixo. Só volta a funcionar se a base for blindada e gente de fora for proibida de chegar perto dos jogadores, do campo e da comissão técnica.

 

Djalma Santos, um dos melhores laterias-deireito da história, disputou 434 jogos pela Portuguesa. Foto: Getty Images

Revelado em 1991, Dener surgiu para o futebol mostrando dribles rápidos e ousados e marcando belíssimos gols. O jogador morreu em abril de 1994, em um acidente de carro. Foto: Getty Images

FnR – O que precisa ser feito para a Lusa voltar à primeira divisão para se consolidar como mais uma força paulista e não apenas para lutar contra o rebaixamento de novo?

Flávio Gomes – Muita coisa. Começando pelo suicídio coletivo de todos os dirigentes e conselheiros. Depois, criatividade para compensar a diferença de receita para os eleitos pela Globo, investindo numa base forte e sólida e fazendo parcerias técnicas e financeiras com clubes de Portugal. Modernizar o estádio (não precisa virar arena; mas é necessária uma reforma) e o clube como um todo. Iniciativas de marketing para arregimentar jovens torcedores. Colocar o departamento de futebol na mão de poucas pessoas e que entendam de futebol. Proibir qualquer dirigente de sequer conversar com quem for tocar o futebol. Cassar todas as carteirinhas de diretores e conselheiros. Escolher uma comissão técnica jovem e moderna e ficar com ela por no mínimo cinco anos, sem cobrança de resultados.

 

FnR – Como torcedor e jornalista, você tem medo que a Lusa vire um Juventus da Mooca, que vai ter mais notoriedade pelos “hipsters” que vão assistir a jogos no Canindé no sábado de manhã?

Flávio Gomes – Não tenho medo de nada. A Portuguesa não vai virar um Juventus, nem um Nacional, nem nada. Vai ser sempre a Portuguesa, onde quer que jogue. Se for para jogar de domingo de manhã, OK. Na Série A3, OK. Na Série D, OK. O modelo do futebol brasileiro hoje não autoriza ninguém a querer adivinhar o futuro. A Portuguesa vai ser do tamanho que ela puder ser. A única preocupação é acabar com o futebol. Mas isso não vai acontecer, porque significaria acabar com o clube inteiro. Se vai voltar a ser grande? Pode ser, num campeonato eventual, num jogo isolado. Não dá para ter ilusões com este futebol cada vez mais elitizado, que já matou o futebol do interior e de vários Estados em nome de audiências da TV. Não por acaso, o futebol brasileiro não ganhou mais porra nenhuma depois que inventaram de fazer campeonatos de pontos corridos aqui. Longuíssimos, chatos, arrastados, enfadonhos. Foi em 2003. Em 2002 a seleção ganhou o penta. O futebol brasileiro, internamente, é fraco. Não é só a Portuguesa. A diferença é que a Globo paga para Corinthians, Flamengo e outros serem minimamente fortes para que possa ter o que mostrar de quarta e domingo. A Portuguesa não é um caso isolado e único de má gestão e cagadas sequenciais. É como os outros, com a diferença de que tem uma torcida pequena e que ninguém vem em seu socorro para ajudar. Em resumo, é um Palmeiras sem torcida e sem mídia. E sem milionários dispostos a pagar suas contas.

A fanática torcida da Lusa poderia ser maior, se não fosse tão mal-tratada pela diretoria. Foto: Getty Images

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