Blues/Entrevistas/Música

Exclusivo: Manoblues – um homem, uma banda

Guitarra, gaita, bumbo caixa e voz. Tudo isso tocado por uma pessoa, ao mesmo tempo, e com muito talento. Assim são as apresentações e shows de Vasco Faé, ou Manoblues, o “one man band” do Brasil. O músico, que está há mais de 20 anos na estrada, é um dos principais ícones do Blues no Brasil e já tocou em algumas bandas e fez parcerias com grandes músicos, decidiu fazer “vôos” solos para poder ter a liberdade de criar e ousar nas músicas. Dessa criatividade nasceu uma versão de Trem das Onze com Hoochie Coochie Man, que deixa os mestres Adoniran e Muddy Waters orgulhosos.

 

Vasco Faé foi um dos fundadores da tradicional banda Irmandade do Blues e hoje concilia muito bem as agendas do grupo e de sua carreira de homem-banda. “(O projeto) surgiu da necessidade de tocar sozinho… no começo da banda tinha muito pouco tempo nos ensaios pra testar minhas ideias, aí eu ficava em casa tocando sozinho, grudava a gaita com durex no violão e ficava horas e horas tocando sozinho”, explica, em entrevista exclusiva ao Fut’n’Roll.

 

Paulista de Santo André, Vasco já integrou a banda Blues Etílicos, tocou por dez anos ao lado de Andreas Kisser e gravou um duo com Adriano Grineberg, mas também acumula funções fora do palco, organizando e promovendo projetos musicais, sempre levando o Blues de qualidade ao público, casos do “Blueseiros do Brasil” e “Mulheres Gaitistas”. Como Manoblues, Vasquito já tem dois discos em estúdio e um duplo ao vivo. E com tanta criatividade e paixão pela música, com certeza, novos trabalhos virão em breve.

 

Manoblues vê a nova geração do Blues no País com potencial, porém sem foco. “Tem uma leva de ótimos músicos fazendo muito sucesso, mas uma multidão de músicos que provavelmente não escutam muito o que fazem. Às vezes o caminho não é apenas escutar os mais velhos, mas escutar a si mesmo, ouvir teu trabalho incontáveis vezes pra ver onde tá bom, onde não tá, o que fazer, ter ideias…”, opina o bluesman.  Acompanhe a íntegra da entrevista e curta o som de Vasco Faé Manoblues.

 

VascoFae 

FnR: Ano e local de nascimento?

Manoblues: 16/06/1971 Hospital Brasil-Santo André-SP

 

FnR: Quando você começou a tocar e qual foi seu primeiro instrumento?

Manoblues: Não tive um começo exatamente, quando criança eu brincava muito no piano da minha tia, depois comecei a tocar bateria com 15 anos, mas não vingou, ai comecei a cantar e tocar violão com 16 e gaita com 16 também.

 

FnR: Você é autodidata?

Manoblues: Sim, aprendo sozinho o que vejo pessoas fazerem. Tive uma aula de canto e uma aula de campo harmônico, ahh já ia esquecer, quando tinha 15 anos eu fiz aulas de bateria, acho que umas cinco ou dez aulas.

 

FnR: Quais são suas maiores inspirações/influências musicais, dentro e fora do mundo bluseiro?

Manoblues: Led Zeppelin, The Meters, Bukawhite, Big Bill Broonzy, Robert Johnson, Muddy Waters, Trio Globo, Dire Straits, Charley Patton.

 

FnR: Hoje você toca quantos instrumentos? Tem algum que ainda não toca e pretende aprender?

Manoblues: Toco guitarra, gaita, voz, bumbo e caixa. Não sei tocar piano nem sax, tenho um teclado e um sax, mas não consigo parar e me dedicar como eu conseguia quando comecei a me dedicar à gaita.

 

FnR: Como surgiu o interesse pelo Blues?

Manoblues: Quando eu tinha 16 anos eu trabalhava numa loja de sapatos no shopping Iguatemi e pegava meu salario e comprava discos que o vendedor me indicava na loja Museu Do Disco. Um desses era uma coletânea chamada Atlantic Rithm’n Blues. Escutei demais esse disco, mas não sabia ainda do que se tratava. Mais tarde minha namorada que hoje é minha esposa me deu um CD do Eric Clapton que mudou tudo, ali tinha muitos Blues e comecei a entender do que se tratava a palavra Blues, ai veio Muddy Watters, Robert Johnson…

 

FnR: O que é o Blues pra você?

Manoblues: O estilo musical que mais gosto e me dediquei a aprender, é uma história viva de pessoas que ajudaram a alterar o rumo da cultura mundial.

 

FnR: A Irmandade do Blues é uma das bandas mais tradicionais do Blues no País. Quais as dificuldades de manter uma banda ativa por tantos anos, num país que o blues tem pouco espaço em rádios comerciais?

Manoblues: Acredito que a maior dificuldade é ter paciência.

 

 

FnR: O Blues ainda é muito marginalizado?

Manoblues: Acredito que não, tem musicas nacionais que prefiro não citar que são muito mais marginais.

 

FnR: Eu conheci teu trabalho em 2003, no lançamento do CD “Cor do Universo”, quando você estava no Blues Etílicos. Porque você saiu da banda? Qual a sua relação com o Blues Etílicos hoje?

Manoblues: Bom, essa é uma questão delicada. Prefiro simplificar dizendo que saí porque meu caminho não era aquele. Mantenho amizade com alguns integrantes ainda.

 

FnR: Como surgiu o projeto solo do Manoblues?

Manoblues: Surgiu da necessidade de tocar sozinho, kkkkkk, desculpa o trocadilho. Mas, no começo da banda tinha muito pouco tempo nos ensaios pra testar minhas ideias, etc, aí eu ficava em casa tocando sozinho, grudava a gaita com durex no violão e ficava horas e horas tocando sozinho. Um belo dia resolvi fazer isso em publico, eu já tinha o suporte de gaita. Aí depois com o tempo fui apenas adicionando elementos. O nome Manoblues era um apelido que um fã do Irmandade do Blues nos chamava toda vez que ia em nossos shows lá pelos 1994.

 

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FnR: Dá pra conciliar as agendas do Manoblues e da Irmandade?

Manoblues: Tranquilamente. Sempre tive vários trabalhos, hoje em dia só tenho o trabalho solo, o Irmandade do Blues e o duo com o Adriano Grineberg, mas há dez anos eu tinha muitos, cheguei a ter sete projetos ao mesmo tempo, sempre deu certo as agendas, acho que foi sorte.

 

FnR: Seu último disco foi lançado em 2012, certo? Fale um pouco desse trabalho. Foram composições próprias, versões, etc… Tem planos para um novo álbum em curto prazo?

Manoblues: Não foi o último não, foi o mais recente kkkk, foi gravado ao vivo no Photozofia onde eu já havia gravado o CD do duo. Juntei todas minhas melhores versões e gravei nesse formato homem-banda. Tem algumas composições próprias também, ficou um ótimo clima como sempre ficam os shows lá no Photozofia. Tenho muita amizade com o Sandro e a Pati que são os donos e eles proporcionam um clima muito bom mesmo.

 

 

FnR: Você é um cara multifuncional, tanto encima do palco, quanto nos bastidores, organizando e produzindo grandes projetos para promover o Blues, como o “Blueseiros do Brasil” e “Mulheres Gaitistas”. Explique como surgiram essas ideias.

Manoblues: Na realidade isso aconteceu sem que eu soubesse como fazer ou porque eu deveria fazer. Sempre fui uma pessoa de ideias, acho que em alguns casos essas ideias deram certo e eu tive a sorte de ter a capacidade e condições ideais pra realiza-las. O Blueseiros do Brasil surgiu de um churrasco de fim de ano que resolvi organizar com os amigos do Blues num estúdio de gravação. Passamos o dia gravando e comendo churrasco, tomando cervejas e eu produzi. Depois fiz isso mais algumas vezes até conseguir lançar um CD disso. O projeto cresceu e até já excursionamos de busão. Já o projeto mulheres gaitistas veio de uma percepção que eu tive num determinado momento, de que a cena da gaita no Brasil carecia e muito da figura feminina. Nos festivais de gaita não se convidavam mulheres gaitistas, nem estrangeiras. Assim eu formatei uma ideia e enviei pro Sesc que acolheu. Foi um baita sucesso. Esse projeto acabou levando ao projeto Mulheres Blueseiras que aconteceu no Sesc’n Blues em 2010. E assim vai.

 

FnR: A partir do Mulheres Gaitistas, conhecemos a Tiffany Harp, que na minha opinião, é uma das maiores revelações do últimos anos… Algum novo projeto na manga?

Manoblues: Ah que legal saber disso, gosto muito da grande Tiffany, além de tocar muito bem tem uma voz muito boa. Na realidade depois que aconteceu o Mulheres Gaitistas as coisas mudaram, ela fez uma primeira apresentação no festival internacional de harmônicas em São Paulo, aí fiquei sabendo e a chamei pra participar do projeto Mulheres Blueseiras. Não foi no Mulheres Gaitistas que a Tiffany tocou, que revelou a grande Sarah Messias que atualmente está morando nos Estados Unidos estudando música.

 

FnR: Como você vê o momento do Blues no Brasil?

Manoblues: Vejo que esta muito bem, quem faz um bom trabalho não apenas nos palcos tem mais chances. Me refiro a um trabalho de agendamento organizado, pontualidade, boa apresentação, etc. Ainda tem muita gente deslumbrada que acha que ser doidão e beber muito é sinal de ser um bom blueseiro, mas discordo.

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FnR: Você acha que o trabalho iniciado por você, o pessoal do Blues Etílicos, o Celso Blues Boy, e outros grandes nomes, há algumas décadas tem gerado bons frutos?

Manoblues: Na realidade, o Irmandade do Blues tem 22 anos. O Celso, o André Christovam, tem mais de 30 anos de estrada, o Blues Etílicos 27 anos. A primeira banda de Blues, pioneira, foi o Atlântico Blues de um gaitista chamado Carlitos Patrone, ele e o Zé da Gaita são os pioneiros da gaita Blues no Brasil. Acredito que a melhor maneira que todos esses trabalhos ajudaram e ajudam é se mantendo vivos. O. Blues Etílicos tem um trabalho sensacional, muito bem feito e muito consistente desde o inicio, o André Christovam lançou o Mandinga, que pra mim é o mais representativo disco de Blues gravado no Brasil, com uma criatividade que levou o Blues nacional nas paradas das rádios no inicio dos anos 90.

 

FnR: Como vê a nova geração do Blues BR?

Manoblues: Um pouco perdida, sem foco, mas muito criativa mesmo. Tem uma leva de ótimos músicos fazendo muito sucesso, mas uma multidão de músicos que provavelmente não escutam muito o que fazem. Às vezes o caminho não é apenas escutar os mais velhos, mas escutar a si mesmo, ouvir teu trabalho incontáveis vezes pra ver onde tá bom, onde não tá, o que fazer, ter ideias …

Acredito e sempre acreditei que para o Blues ser popular no Brasil deveria ser cantado em português, mas não existe uma horda de bandas fazendo isso com consistência sem parecer Nova Guarda dos anos 60. Enquanto essa padronização não acontece o Blues segue como sempre seguiu, sem depender disso pra continuar, pois quem ama o Blues não tá preocupado que ele seja um estilo da moda.

Vejo muito isso acontecendo hoje em dia, a molecada curtindo pagode, funk, sertanejo, não porque goste, mas porque a galerinha da faculdade curte. Na minha adolescência a gente chamava isso de “embaleiro”, e hoje vejo que isso tá acontecendo com muito mais intensidade, e pra falar a verdade, já vi isso acontecendo no meio do Blues e fiquei muito triste. Sabe, ver uma pessoa dizer que AMA o Blues mas não sabe dizer o nome de UMA música sequer de Robert Johnson pra mim é muito contraditório. Gostar de Blues é gostar da história do Blues, e não tratar o Blues como uma religião, onde os fieis só seguem os preceitos quando estão no local designado.

Vejo a nova geração com esses desafios, mas não apenas a nova geração mas as mais antigas também pois nem a nova e nem a geração antiga são totalmente estabelecidas. Pergunte a dez taxistas se já ouviu falar em algum dos Blueseiros, ou se já ouviu falar em Claudinho e Buchecha. Esse é o desafio de manter o Blues através do tempo e da sociedade que se encaixa.

 

 

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