Copa do Mundo/Futebol

A redenção dos colonizados

Por Bruno Rizzato Rodrigues*

Em 12 de outubro de 1492, Rodrigo de Triana gritava a famosa frase que consagraria o comandante de sua nau, Cristóvão Colombo. “Terra a vista!”, dizia ao avistar a região do Golfo do México, na América Central. Desde a descoberta do Novo Continente, os países europeus, culturalmente e tecnologicamente muito a frente das outras nações do Mundo, iniciaram a desbravação e disputa por colonização das Américas, assim como já acontecia no continente Africano. Mas vamos pular essa aula de história, que já é de conhecimento de todos nós.

Sim, nós americanos fomos colonizados por muito tempo pela superioridade européia, e esse estigma continua a ter seus reflexos subconscientes. Mas você deve estar se perguntando o que cargas d’água isso tem a ver com o futebol?!

Bom, meus amigos, a verdade é que nessa Copa do Mundo – por sinal, que baita Copa! -, vimos jogos empolgantes, com seleções não tradicionais surpreendendo os temidos clubes europeus, sacramentando a precoce eliminação de potências do futebol, como Espanha (que vergonha), Inglaterra e Itália. Em contrapartida, as seleções das Américas estão garantindo a classificação para as oitavas com certa facilidade, como Brasil, Argentina, Colômbia, Uruguai, Chile, México e Costa Rica.

Com uma simples análise, podemos dizer que essa Copa das Copas está provando por A mais B uma crise do futebol europeu. “Ué, mas os melhores e mais valorizados campeonatos de futebol estão no continente europeu!”. É exatamente esse o motivo de preocupação. Os grandes clubes europeus gastam milhões (veja o PSG, jogando Liga Master na vida real), montando times com estrelas de todo canto do planeta. O falido futebol sul-americano apenas vive para exportação de talentos, o que acaba refletindo na qualidade de nossas ligas. Diria que a Libertadores da América caiu demasiadamente de nível nos últimos 10 anos. Não existe mais aquele espírito aguerrido, muito menos com grande nível técnico. Reflexo da falta de craques e falta de amor ao clube, já que preferem partir para o sucesso financeiro “nas Oropa”.

Messi nasceu em Rosário, torce para o Newell's, mas nunca vestiu a camisa dos leprosos (Foto: Reprodução/Twitter)

Messi nasceu em Rosário, torce para o Newell’s, mas nunca vestiu a camisa dos leprosos (Foto: Reprodução/Twitter)

Não podemos fugir disso, o dinheiro manda no futebol atual. Não há solução, não há receita básica que possa interferir nos objetivos empresariais de managers e jogadores. Mas voltando a Copa do Mundo, vendo os recentes resultados de sucesso das colônias e fracasso dos colonizadores, concluímos que o futebol europeu está no momento crucial de decidir seu futuro. Ou continuam optando pelo retorno financeiro individual de cada clube, ou começam a valorizar a revelação de novos talentos locais, oriundos das categorias de base. É hora de investir nos promissores jovens de seus próprios países, estabelecer limites para estrangeiros nos clubes e trabalhar a longo prazo para recuperar o prestígio de potência no futebol.

Não por acaso, a Alemanha é uma das poucas representantes da Europa na competição com reais chances de conquistar o título do Mundial. Isso porque, por volta do ano de 2000, após consecutivos fracassos em Copas do Mundo e Eurocopas, a Federação percebeu que era hora de investir em jovens talentos. Desde então, os clubes da Bundesliga trabalham em uma espécia de “acordo” com o treinador da Seleção Alemã, já em 2004 sob comando de Jurgen Klinsmann, e a partir de 2006 com Joachim Low. Tudo isso em parceria com o treinador das categorias de base, Frank Wormuth. A quantidade de jovens testados aumentou muito, passando por etapas nas categorias sub-20, até chegar na Seleção Principal. O resultado foi facilmente notado com as recentes campanhas de sucesso de clubes como o Bayern de Munique e Borussia Dortmund, agora principais ‘fornecedores’ de talentos para o elenco da Seleção Alemã.

O que podemos concluir de tudo isso, é que as Federações europeias precisam seguir o exemplo da Alemanha se quiserem valorizar o reconhecimento de suas Seleções. Se a situação continuar como está, serão apenas reféns da importação movida por interesses comerciais dos clubes. Já as Federações sul-americanas, não podem lutar contra o vislumbre monetário que os jogadores almejam, levando-os para o exterior. Faz parte da realidade atual e a força para contra-atacar é praticamente nula. Dependemos do já citado controle de gastos europeus, ambições individuais dos jogadores e, o que mais falta no futebol atual, paixão e identificação com a ‘casa’.

Que essa Copa mostre ao Mundo que, pelo menos no futebol, os colonizados hoje abastecem os colonizadores. Me parece algo histórico, sempre dependeram de nossas mercadorias e hoje não é diferente. O fio de esperança é alimentado pela vibração dos atletas defendendo suas camisas com orgulho, cantando seus hinos em uma só voz com seus povos. Que a paixão e a garra que uruguaios, colombianos e chilenos estão mostrando em campo, também estejam presentes na hora de decidirem onde consolidarão suas carreiras como atletas. O futebol pede: jogue sempre por seu país, mas prefira jogar EM seu país!

* Bruno Rizzato Rodrigues é jornalista, formado em 2013 pela Universidade Anhembi Morumbi, já trabalhou em redação, assessoria de imprensa e mídias sociais. Apaixonado por futebol e música, em constante busca por um espaço para compartilhar informações.

2 pensamentos sobre “A redenção dos colonizados

  1. Pingback: Crônica: A redenção dos colonizados | Bruno Rizzato – Jornalista

  2. Excelente crônica! Só li verdades nesse texto. O futebol decaiu muito por culpa do dinheiro e dos interesses. Bem feito pra Europa!! Torço pra que melhore o futebol sul americano, agora.

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