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“Os Hermanos e nós” desvenda a rivalidade de Brasil e Argentina no futebol

Os jornalistas Ariel Palacios e Guga Chacra lançam nesta quarta-feira (14), em São Paulo, o livro “Os Hermanos e nós”, pela editora Contexto. A obra convida os leitores a deliciarem tudo o que envolve a relação de Brasil e Argentina no futebol.

Uma das maiores rivalidades do esporte é relatada em uma linguagem moderna e dinâmica, sob olhares dos autores, um que vive na Argentina até hoje, e outro que já morou por lá. Reparem que eu falei uma das maiores, e não “a maior”. Brasil-Argentina perde para Boca-River na opinião dos autores, mas mesmo entre seleções, os brasileiros perdem o posto de “maior rival”. Sim, Pelé vs Maradona é supervalorizado do lado de cá da fronteira, porque do lado de lá… que incomoda mesmo é a Inglaterra. “Quando comento isso com meus amigos em Londrina e Curitiba sinto um ar de frustração. “Mas como, eles (os argentinos) não nos odeiam da mesma forma que nós os detestamos?” me perguntaram várias vezes em um peculiar tom de “ódio não-correspondido”. Essas coisas podem ser traumáticas para nós, brasileiros. O sonho dos argentinos seria o de derrotar o Brasil em uma semifinal. E, na seqüência, derrotar a Inglaterra na final”, explica Ariel Palacios.

E mesmo que os brasileiros odeiem admitir isso, existem muitas semelhanças entre os times daqui e os Hermanos. Tanto que o palmeirense Guga Chacra apresenta uma análise que fez para definir quais seriam os equivalentes brasileiros de clubes argentinos e já adianta ao Fut’n’Roll que o seu Verdão seria o Racing.

 

livro

Copa do Mundo, Maradona, ditadura militar, Messi, e muito mais sobre o futebol argentino e a paixão de seu torcedor e os cânticos mais famosos dos estádios, sejam ofensivos ou não, são alguns dos temas abordados no livro. Ariel e Guga também prepararam um dicionário muito útil para turistas que queiram acompanhar um jogo de futebol na Argentina, com todas as gírias e xingamentos usados pelos torcedores dentro dos estádios, inclusive os “impropérios com frequentes alusões às mães de outrem e referências aos esfíncteres anais”, segundo os autores. É imperdível!!!

Quem quiser um exemplar autografado de “Os Hermanos e nós” deve comparecer à Livraria da Vila, na Alameda Lorena número 1.731, nos Jardins, a partir das 18h30. Como aperitivo, acompanhe a entrevista exclusiva que Ariel Palacios e Guga Chacra ao Fut’n’Roll.

 

FnR: Quem são os autores do livro?

ARIEL: Tenho 47 anos. Sou brasileiro, embora tenha nascido em Buenos Aires. Me criei em Londrina, no norte do Paraná. Estudei Jornalismo na Universidade Estadual de Londrina (UEL) e fiz o Master de Jornalismo do jornal El País, em Madri. Em 1995 me instalei em Buenos Aires. Desde esse ano sou correspondente do Estado de S.Paulo. E, desde 1996 também da Globo News. No ano passado publiquei meu primeiro livro, “Os Argentinos”, pela editora Contexto, uma espécie de “manual” sobre o país.

GUSTAVO: Tenho 37 anos, nascido em São Paulo. Sou comentarista da Globo News e do Estadão em NY. No passado, fui correspondente da Folha em Buenos Aires, do Estadão no Oriente Médio e, posteriormente, em NY, onde também fiz mestrado em relações internacionais na Universidade Columbia.

 

FnR: Como surgiu a ideia do livro?

ARIEL: Foi uma ideia do editor, Jaime Pinsky, que havia gostado muito da parte sobre esportes do livro “Os Argentinos”. Pouco depois da publicação ele disse “teríamos que preparar um livro sobre o futebol argentino”. Concordei, mas disse que só faria a empreitada se o livro fosse feito a quatro mãos. E, neste caso, a pessoa que queria para ser o co-autor era meu amigo Guga Chacra, dono de um supimpa texto. Sorte minha, ele topou.

 

FnR: Quanto tempo vocês levaram para produzir o livro? Qual foi a maior dificuldade?

ARIEL E GUSTAVO: Levamos uns sete meses para preparar o livro. A maior dificuldade, em meu caso, foi a falta de tempo. Trabalhar como correspondente, ser marido e pai ao mesmo tempo deixa poucas horas livres para escrever um livro…

 

FnR: Aqui no Brasil todos reconhecem a qualidade do futebol argentino, mas quando falamos dos confrontos entre times e mesmo entre as seleções dos dois países, é unânime a ideia de que para um brasileiro vencer um argentino, não basta a técnica. O jogador precisa superar a raça argentina. Não são conceitos antagônicos?

ARIEL: Acho que a ideia de “raça” é bastante antiquada, tanto no que concerne ao lado étnico quanto, em gíria, a denominada “garra”. E, mais ainda nas últimas décadas, ao longo das quais os jogadores argentinos fizeram boa parte de suas carreiras no futebol europeu, perdendo bastante uma espécie de “estilo argentino”, que agora é mais difícil de definir.

GUSTAVO: Concordo com o Ariel.

 

FnR: O Brasil aprendeu a lidar com a catimba argentina?

ARIEL: Talvez… mas a seleção argentina não tem o nível de agressividade que tinha até o início dos anos 80. Portanto, agora talvez seja necessário lidar com outros fatores.

GUSTAVO: Acho que ainda não. Muitas vezes, vemos, em Libertadores, jogadores brasileiros caírem nas provocações dos argentinos.

 

FnR: As duas seleções foram campeãs quando seus países eram governados por ditaduras. A seleção de 70 teve em Pelé o grande garoto-propaganda do governo militar. E a Argentina de 78 coroou Kempes, com todas as polêmicas que envolveram aquela Copa. Como vocês enxergam essa relação esporte/poder?

ARIEL: Contamos no livo as conexões esportivas da Copa de 1978 e o poder. Aliás, no perfil de Maradona explicamos que ele foi conivente com o ditador Videla quando ele foi a estrela do juvenil de Tóquio. É terrível, mas na América do Sul existe um uso intensivo do futebol por parte da classe política. Gustavo, existe algo assim também no Oriente Médio?

GUSTAVO: Sem dúvida, governos ao redor do mundo usam o Esporte como propaganda. Vimos isso bastante nos regimes comunistas, onde eles obtinham sucessos esportivos. Mesmo neste ano Putin tentou usar a performance da equipe soviética nas Olimpíadas de inverno para fins pessoais.

 

FnR: Em 1990, uma das maiores polêmicas em confrontos Brasil-Argentina aconteceu com a história da água batizada. Como o povo argentino lembra esse episódio?

ARIEL: Na Argentina o episódio passou praticamente em brancas nuvens. O assunto vem à tona uma vez a cada dez anos quando o técnico Salvador Bilardo é entrevistado sobre o assunto ou quando Maradona fala sobre isso… Mas é raríssimo uma referência sobre o caso.

 

FnR: Acredito que o fanatismo pelo futebol seja igual na Argentina e no Brasil. Mas as manifestações desse fanatismo é bem diferente. É isso mesmo?

ARIEL: Nos últimos anos o fanatismo diminuiu bastante na Argentina. Conto no livro que ficou comum ver pessoas caminhando pela rua, nos carros, fazendo uma vida off-Copa durante as Copas do Mundo…e até na hora de jogos da Argentina. Talvez isso ocorra porque há muitos anos a Argentina não ganha uma copa e o interesse foi diminuindo…

GUSTAVO: No Brasil, também diminuiu. No geral, vejo os brasileiros mais fanáticos pela seleção e os argentinos, assim como espanhóis, mais fanáticos pelos times. No estádio, as torcidas argentinas chamam a atenção pelos seus cânticos.

 

FnR: Podemos dizer que o brasileiro, salvo algumas exceções, comemora as vitórias, enquanto os argentinos apoiam o time para superar as piores derrotas?

ARIEL: Diria que na Argentina – nos últimos anos – a coisa é levada com menos sentimentos traumáticos…

GUSTAVO: Fiquei chocado, certa vez, ao ver o Palmeiras fazer um gol no Boca na final da Libertadores e a torcida argentina, imediatamente, começar a cantar. Foi algo que me marcou.

 

FnR: A música “La concha de tu madre All Boys” é mesmo a mais cantada pelas torcidas argentinas? Pq, se é contra um time pequeno?

ARIEL: Isso foi um fenômeno de curta duração, há vários anos. Começou sendo cantada para xingar a torcida do All Boys e depois era citada para qualquer coisa que dava errado. Mas foi um modismo que durou uns meses e não gerou mais interesse. A maior parte das pessoas nem lembra disso.

 

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Torcedores argentinos são reconhecidos pelo apoio incansável a seus times. Foto: Getty Images

 

FnR: Quais outros cantos das torcidas argentinas vocês destacam? Normalmente os xingamentos são bem pesados né?

ARIEL: As temáticas dos cânticos são sempre racistas, sexistas, enfime, discriminatórios de forma geral. O pessoal pega pesado com freqüência.

NOTA FNR- O Ariel revelou alguns dos xingamentos em seu blog no portal do Estadão. Clique aqui para ver.

GUSTAVO: Mas tem alguns bonitos e, no Brasil, as torcidas costumam copiar os argentinos.

 

FnR: Em relação à violência. Em que nível a polícia argentina tem conseguido impedir as ações dos barras bravas? Os clássicos com torcida única são mesmo a melhor solução? Podemos chegar a esse ponto no Brasil?

ARIEL E GUSTAVO: Os cartolas e os políticos argentinos tendem a minimizar a violência nos estádios. “Isso é o fruto da paixão esportiva”, argumentam… A solução, na minha opinião, é tratar a violência dentro dos estádios da mesma forma que a violência nas ruas. É preciso punir quem espanca ou quem mata uma pessoa. É simples.

 

FnR: Existe alguma particularidade no futebol argentino que é muito diferente do ocorrido no Brasil?

ARIEL: Talvez o uso do futebol por parte da política… aqui isso tornou-se mais intenso por causa da estatização das transmissões dos jogos de futebol.

GUSTAVO: Eu acho a existência de dois campeonatos de pontos corridos por ano. O time é campeão “semestral”.

 

FnR: Os argentinos confiam que podem protagonizar a segunda edição do Maracanazzo, ou a defesa não tão forte como o ataque da seleção pode aumentar o jejum de títulos nesta Copa?

ARIEL: Nas últimas Copas a expectativa generalizada nunca foi de confiança na vitória na Argentina. Talvez seja devido à falta de conquistas de Copas desde 1986. As expectativas são sempre moderadas. Desta forma, após cada desclassificação, o clima não foi de “trauma”…

GUSTAVO: Acho que, desta vez, com Messi, há um pouco mais de confiança.

 

FnR: O que é mais forte: a rivalidade entre Boca e River, ou entre Brasil e Argentina?

ARIEL: A rivalidade Boca-River, sem dúvida. Qualquer assunto local e freqüente sempre gera mais rivalidade do que qualquer embate ocasional e distante na geografia.

GUSTAVO: Boca-River.

 

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La Mano de Diós: gol de Maradona contra a Inglaterra é emblemático na rivalidade entre os dois países. Foto: Getty Images

FnR: Mas apesar de acreditarmos que sim, para a Argentina, o Brasil não é o principal rival. É isso mesmo?

ARIEL: Pois é. Em 1982 as tropas do ditador Leopoldo Fortunato Galtieri desembarcaram nas gélidas e áridas ilhas Malvinas, dando início à guerra com a Grã-Bretanha. A derrota argentina no conflito bélico suscitou uma onda anti-inglesa sem precedentes em Buenos Aires. E, como costuma acontecer, os sentimentos nacionalistas transferiram-se ao futebol. Desta forma, desde 1982 a Inglaterra é o principal rival nos corações e mentes dos argentinos em tempos de Copa. O Brasil, evidentemente, está em segundo lugar. Próximo, mas segundo. Quando comento isso com meus amigos em Londrina e Curitiba sinto um ar de frustração. “Mas como, eles (os argentinos) não nos odeiam da mesma forma que nós os detestamos?” me perguntaram várias vezes em um peculiar tom de “ódio não-correspondido”. Essas coisas podem ser traumáticas para nós, brasileiros. O sonho dos argentinos seria o de derrotar o Brasil em uma semifinal. E, na seqüência, derrotar a Inglaterra na final. Não é à toa que entre os gols mais recordados – e saboreados – pelos argentinos não há nenhum gol contra o Brasil. Os dois gols que são reverenciados são os feitos contra os ingleses na Copa de 1986 no México. Os dois feitos por D.A.Maradona. Um, heterodoxo, com a mão. O outro, convencional, como corresponde, com o pé. A historiadora Emma Cibotti, autora do livro “Queridos inimigos” me comentou há poucos anos a expressão popular “contra os ingleses é melhor”. Cibotti também recordou a desafiante frase sempre cantada pela torcida argentina, quando salta nas arquibancadas ou nas praças para estimular a seleção: “quem não pula é um inglês”. E esta frase é gritada mesmo que o jogo em questão não seja contra a Inglaterra. Não existia, até o momento desta entrevista, a expressão “quem não pula é brasileiro”….

 

FnR: Vocês podem revelar seus times? Acreditam que tenham carinho também por algum clube argentino, por conviverem tanto tempo por lá?

ARIEL: Me criei em Londrina, logo, torço pelo Londrina Esporte Clube. Sou monogâmicamente esportivo. Não torço por nenhum outro time de outra cidade brasileira nem de cidades do exterior.

GUSTAVO: Sou Palmeiras.

 

FnR: No livro, vocês relatam os equivalentes brasileiros de clubes argentinos. Vocês podem citar alguns desses equivalentes e explicar qual foi o parâmetro usado nas comparações?

ARIEL: Isso é com o Gustavo, que é magistral para essas comparações e relativizações…

GUSTAVO: Tem de comprar o livro! Mas meu Palmeiras seria o Racing.

 

FnR: Para terminar, o que vocês esperam da Copa que começa em menos de um mês, tanto da seleção como em relação à organização do evento e o tão falado legado? 

ARIEL: Para mim é um mistério. Tenho uma grande curiosidade para ver quais obras estarão completas e como as coisas estarão funcionando durante a Copa. Sobre a seleção, espero que ganhe. Mas, se não ganhar, tampouco é a morte. A vida é mais ampla que um campo de futebol. E, recordando o velho slogan olímpico, “o que importa é competir”. No fim das contas, um esporte deveria ser um evento lúdico.

GUSTAVO: O Brasil merecia ter uma Copa, mas a organização tem sido muito ruim, especialmente na questão das obras.

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Um pensamento sobre ““Os Hermanos e nós” desvenda a rivalidade de Brasil e Argentina no futebol

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