Europeu/Futebol

A submissão do futebol a quem realmente manda

Quando o técnico Fábio Capello deixou o futebol italiano para comandar a seleção da Inglaterra em 2009, saiu dando declarações pesadas sobre o esporte no seu país. Entre outras coisas, disse que o futebol italiano estava decadente e iria se afundar ainda mais porque estava sob o comando dos ultras, os violentos torcedores organizados italianos.

Neste sábado (3), o mundo teve uma demonstração clara do que Capello quis dizer. A final da Copa Itália entre Napoli e Fiorentina só ocorreu após uma conversa que envolveu o delegado da partida e o capitão do Napoli, Hamsik, que foram até a curva Norte do estádio Olímpico de Roma pedir AUTORIZAÇÃO ao torcedor Gennaro de Tommaso para que o jogo ocorresse.

Gennaro, conhecido como Genny Carogna (em português Genny Carniça), é filho de Ciro de Tommaso, conhecido mafioso napolitano. E também é o líder dos ultras do Napoli, que estavam atirando rojões em campo antes do início do jogo em protesto contra a briga que ocorreu nas ruas de Roma algumas horas antes, envolvendo ultras da Roma e do Napoli, além da polícia local, resultando em um torcedor napolitano em estado grave e outros dois feridos, além de um policial machucado.

Após conversar com Hamsik, Genny Carogna, fez gestos para a torcida, que imediatamente parou os ataques e devolveu a calma ao estádio. Em seguida, deu o consentimento para a realização da partida. Ele não vestia uma camiseta do clube do coração, mas uma preta com os dizeres “Libertà per gli ultras”(Liberdade para os ultras) atrás, e “Speziale libero” (Speziale livre) na frente.

E essa é uma outra história envolvendo os ultras e a polícia italiana. Em 2007, durante o clássico da Sicília, entre Catania e Palermo, uma briga causou a morte do policial Filippo Raciti. O acusado pela morte foi o ultra Anthony Speziale, que cumpre pena de oito anos. Alguns meses depois, o torcedor da Lazio Gabriele Sandri foi morto por um policial durante a viagem do seu grupo de torcedores para assistir a um Inter x Lazio em Milão. Os dois casos são lembrados com muito rancor pelos ultras pela diferença do tratamento dado pelas autoridades. Quando o policial foi morto, cancelaram a rodada inteira. Na ocasião da morte do torcedor, apenas o duelo Inter x Lazio foi adiado. O episódio uniu ainda mais todas as torcidas italianas, ainda que as rivalidades não sejam esquecidas. Foi uma rivalidade que motivou a briga deste sábado. Torcedores da Roma, eliminada pelo Napoli na Copa Itália, atacaram os napolitanos e foi o estopim para tudo de errado que ocorreu nesta tarde.

Sim, nenhum dos episódios envolve a torcida do Napoli. E é mais uma mostra da razão que Fábio Capello tinha. Os ultras italianos já não se importam mais com rivalidade entre os clubes, são uma organização muito forte dentro da Itália. Os organizados são um negócio que movimenta muito poder e dinheiro. Logo, possuem influência nas decisões do país.

Após toda a confusão e a autorização de Genny, Napoli e Fiorentina foram a campo decidir a Copa Itália. A vitória foi napolitana por 3 a 1, dois gols de Insigne e um de Mertens. Vargas fez o gol da viola. A conquista foi estrategicamente dedicada aos torcedores feridos.

Mas o que vai ficar é a submissão das autoridades italianas em relação aos ultras. É uma mostra de quem realmente manda no futebol italiano e um sinal do que já ocorre, mesmo de maneira não tão explícita, em vários países do mundo. Ou não vemos coisas parecidas, por exemplo, na Argentina, México e Brasil?

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