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O assassino com cara de bebê

O ano de 1999 foi muito especial para o Manchester United. O time conseguiu os títulos ingleses e da Copa da Inglaterra e estava na final da Champions League contra o Bayern. A data deste jogo também era especial, 26 de maio, dia em que o ex-técnico Matt Busby, comandante do United campeão europeu em 1968, completaria 90 anos de vida.

O clima para a final em Barcelona era todo favorável ao Manchester United. O único problema eram os importantes desfalques que sir Alex Ferguson tinha para aquele jogo. Roy Keane e Paul Scholes estavam fora da partida, obrigando o técnico a recuar David Beckham para a posição de volante, abrindo o canhoto Ryan Giggs para a ponta direita e escalando Blomqvist na esquerda.

O time demorou a se adaptar a essas alterações e, como consequência, sofreu um gol logo aos cinco minutos de partida, após falta cobrada por Mario Basler. Com a vantagem no placar, os bávaros passaram a fazer o que faziam de melhor na época: se defender.

Foto: Getty Images

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O United tinha a posse de bola, dominava as ações, mas não as transformava em oportunidades. Com Beckham recuado, o time perdia na criatividade e ainda não tinha a mesma força de marcação, o que permitia o Bayern ameaçar os ingleses nos contra-ataques. Tanto que os alemães quase fizeram 2 a 0 em uma bola que caprichosamente bateu na trave e voltou para as mãos de Peter Schmeichel.

O relógio já apontava trinta minutos do segundo quando Alex Ferguson decidiu partir para o tudo ou nada, colocando os atacantes Teddy Sheringham e Ole Gunnar Solskjaer. As alterações deram mais mobilidade ao ataque dos Red Devils, que passaram a ameaçar o gol de Oliver Kahn.

Mas o tempo já era inimigo do Manchester United e Lennart Johansson, então presidente da UEFA, já deixava seu lugar na tribuna do Camp Nou para se preparar para a cerimônia de premiação, colocando as tradicionais fitinhas coloridas nas alças da taça da Liga com as cores do Bayern. O relógio apontava 45 do segundo tempo e o juiz Pierluigi Collina apontou três minutos de acréscimo.

No desespero, o United conseguiu um escanteio aos 46. Até o goleiro Schmeichel foi para a área tentar a cabeçada, afastada pela defesa do Bayern. No rebote, Giggs bateu para o gol e a bola desviou nos pés de Sheringham antes de morrer no fundo das redes de Kahn.

Foto: Getty Images

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Os alemães não acreditavam no que viam. A partida que estava ganha iria para a prorrogação. Ou não. Embalados pela pressão que estavam praticando nos últimos minutos, o United conseguiu um novo escanteio aos 48, novamente pelo lado esquerdo do ataque. Beckham novamente bateu, dessa vez na cabeça de Sheringham. O atacante cabeceou para baixo e a bola encontrou o pé salvador do norueguês Solskjaer, que estufou as redes de Oliver Kahn, causando a mais improvável virada da história da Champions League.

Foto: Ben Radford/Allsport

Foto: Ben Radford/Allsport

Os alemães não acreditavam no que viam. Matthäus, substituído, era o retrato da incredulidade no banco de reservas do Bayern. Ferguson, mentor de grandes viradas na história do United, mascava tranquilamente o seu chiclete no momento em que definiu ser o mais fez de sua carreira. Lennart Johansson chegou ao campo assustado, vendo aqueles que considerava vencedores completamente abatidos em campo e os perdedores dançando felizes. Até que caiu a ficha do que realmente aconteceu. E trocou rapidamente as fitinhas da taça.

Foto: Getty Images

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Aqui temos o jogo completo em vídeo. Vale muito a pena ver, mas é absolutamente compreensível que seja avançado até os cinco minutos finais. Provavelmente foi a final mais emocionante de uma edição da Champions League.

Tido como grande revelação, a imprensa inglesa batizou Solskjaer como “baby faced assassin”, pelo seu grande poder de finalização e pela cara de criança. A partir daquele momento, Solskjaer deixou de ser um promissor atacante para se tornar o amuleto dos Red Devils. Ele ainda participou dos títulos ingleses de 2001 e 2003, mas as inúmeras contusões atrapalharam sua carreira, encerrada em 2007.

O desfalques naquela noite, Keane e Scholes, teriam sua redenção. Em dezembro de 1999, Keane marcaria o gol da final do mundial contra o Palmeiras. Scholes seria campeão europeu novamente pelo Manchester United no ano de 2008, após outra infartante decisão, dessa vez nos pênaltis, contra o Chelsea. O próprio Bayern teria a sua redenção, sendo campeão europeu com boa parte desta geração dois anos depois.

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