Futebol

Moleque da Vila – O que será do alçapão alvinegro?

* Por Victor Pereira

Para darmos o pontapé inicial, falarei um pouco sobre o estádio onde o maior jogador de todos os tempos, o Rei Pelé, jogou, ou melhor, desfilou toda sua classe e destreza com a redonda nos pés. Trata-se do Estádio Urbano Caldeira, mais conhecido por Vila Belmiro.

A primeira vez que fui à Vila Belmiro, foi num Santos e Corinthians de quarta à noite. Eu, com 15 anos, já havia ido a estádios, mas estava completamente ansioso para chegar e ver o Peixe deitar e rolar naquele templo sagrado. E foi o que aconteceu. Em um primeiro tempo de total domínio do Santos, Zé Roberto, hoje no Grêmio, marcou gol de craque aos 10 minutos, o Corinthians, ainda assim, foi ao vestiário agradecido por ter achado um gol, aos 22 minutos, marcado contra pelo zagueiro do Peixe Adaílton. Emoção, muita emoção! No segundo tempo haja gol perdido, Jonas – hoje no Valencia, da Espanha – perdeu, sem tirar nem por, quatro gols feitos, mas a minha primeira vez não poderia ser manchada e, então, Jonas, o mais xingado da noite, fez aos 35 minutos do segundo tempo. Pulei, gritei e ao me acalmar percebi uma singela gota escorrer pelo rosto. A todos, na hora, comentei que era suor, óbvio.

A Vila mais famosa do mundo, como também é chamada, foi construída em outubro de 1916 e traz o nome Urbano Caldeira em homenagem a um personagem que dedicou mais de 20 anos de sua vida ao clube, principalmente, como goleiro e treinador – segundo relatos da época, Urbano Caldeira era tão caprichoso e perfeccionista que, em alguns momentos, ele próprio cortava a grama e fazia pequenos reparos no estádio.

(Foto 1) Urbano Caldeira crédito - Portal Juicy Santos

Urbano Caldeira
Foto: Portal Juicy Santos

(Foto 2) Inicio das obras de construção da Vila Belmiro - Divulgação Santos FC

Inicio das obras de construção da Vila Belmiro
Foto: Divulgação Santos FC

Alguns anos mais tarde, depois da era Pelé (1957 – 1974), o estádio passou a ser chamado, também, de Alçapão da Vila, em virtude das sequenciais vitórias esmagadoras pra cima dos adversários, sobretudo, na década de 1960. Além disso, a proximidade das arquibancadas com o gramado exercia, e é assim até hoje, uma pressão fora do comum.

Desde sempre a Vila Belmiro foi importante na geração de craques do futebol brasileiro, ali inúmeros jogadores fizeram o torcedor santista explodir de felicidade. Coutinho, Pelé e Pepe; Serginho Chulapa, Giovanni, Robinho, Diego, Elano, Paulo Henrique Ganso e Neymar, são alguns dos nomes que marcaram as diversas gerações dos ‘Meninos da Vila’.

(Foto 3) Pelé, Pepe e Coutinho - Divulgação Santos FC

Pelé, Pepe e Coutinho encantaram o mundo defendendo as cores santistas.
Foto: Divulgação Santos FC

(Foto 4) Alçapão Alvinegro - Marcus Cabaleiro

Alçapão Alvinegro é temido pelos adversários
Foto: Marcus Cabaleiro

Curiosidade:

Atualmente a capacidade oficial da Vila Belmiro gira em torno de 18.500 torcedores, mas em 20 de setembro de 1964 passaram pelas catracas 32.986 pagantes – até hoje este é o maior publico já registrado em toda a história do estádio. A partida foi o clássico entre Santos e Corinthians, que foi interrompida aos seis minutos do primeiro tempo, por conta de problemas na estrutura das arquibancadas, devido a grande concentração da multidão. O jogo foi remarcado para o dia 30 do mesmo mês, no Pacaembu, em São Paulo, e na presença de um público pagante de 28 mil torcedores, o certame terminou empatado em 1×1 com gols de Flávio para o Corinthians e Pelé para o Peixe.

(Foto 5) Santos X Corinthians 20 de setembro de 1964 - O dia em que a arquibancada cedeu - Getty Images

Maior Público: Santos X Corinthians 20 de setembro de 1964 – O dia em que a arquibancada cedeu.
Foto – Blog Terceiro Tempo

Números importantes sobre a Vila:

– A maior série de invencibilidade do Peixe na Vila foi de 02 de junho de 1929 a 21 de dezembro de 1930, com 35 jogos – 29 vitórias e apenas seis empates.

– Em 2013, no geral, foram jogados 27 jogos: 14 vitórias; 11 empates e 02 derrotas.

– Apenas no Brasileirão desse ano somaram-se 14 jogos por lá, com 07 vitórias; 05 empates e as 02 derrotas, para o campeão Cruzeiro (0x1) e Botafogo (1×2).

Nos últimos três anos, diante da nova gestão – de Luiz Álvaro, Odílio Rodrigues e Cia, uma questão importante tomou força nos bastidores do Santos Futebol Clube. Construir, ou não, um novo estádio que comporte a torcida alvinegra?

De 2009 a 2012 o número de sócios do peixe cresceu cerca de 200%, saltando de 20 mil para 60 mil sócios-reis. Ao analisarmos estes números, fica óbvia a necessidade de outro estádio que admita todo esse público, ou boa parte dele.

Vejamos:

Já foram discutidas algumas soluções hipotéticas: (i) a possibilidade de ampliação da Vila Belmiro, mas já descartada, pois o entorno do estádio não comporta tamanha alteração – é um bairro tipicamente residencial, com ruas estreitas; (ii) construir uma Arena em Cubatão, cidade que fica a 17 km de Santos, esta hipótese também foi descartada pois, segundo o presidente Odílio Rodrigues, o plano de negócios não foi aprovado pelo Comitê Gestor do Clube; (iii) a probabilidade de arrendamento do Pacaembu.

Na minha visão, a melhor das três é a última.

Primeiro porque é um estádio maior, comportaria grande parte da torcida alvinegra – possui uma capacidade de 40.199 torcedores – com isso, aumentaria a fatia de receita das bilheterias nos jogos – em 2012, este item representou apenas 9% do bolo de faturamento (de R$ 198 milhões) do SFC. Além disso, como o estádio está pronto, seriam necessárias apenas obras de modernização e adequação à marca do Peixe, o que certamente custaria bem menos do que criar um estádio do zero.

Segundo: Com uma arena maior existe a possibilidade de inflar as receitas com shows e outros eventos de grande porte – apesar de existir a Lei do Psiu na região do Pacaembu, foi idealizado um projeto (apresentado pela Construtora OAS, empresa da qual seria uma possível parceira do SFC nessa empreitada) para instalar um isolamento acústico no estádio.

Terceiro: Para quem já foi ao Pacaembu lotado sabe que ali pode se tornar nosso novo Alçapão, um estádio confortável (mesmo sem ser padrão FIFA), justamente, por ter as arquibancadas próximas ao gramado, o que nos remete ao costume da Vila.

Quarto: Temos história com o Pacaembu. Nosso rei já desfilou muito por lá e agora, mais recentemente, presenciamos nosso terceiro raio, Neymar Jr., entortando os zagueiros uruguaios do Peñarol para conquistar a terceira taça da Libertadores da América, em 2011.

E a Vila? Nosso querido e velho alçapão deveria se tornar a segunda casa do Peixe, ou seja, mandar jogos esporádicos por lá só para sentir aquele gostinho de xingar o juiz mais de perto, experimentar uma vez mais a mística daquele local e, consequentemente, respirar e notar a  história presente em cada metro quadrado de nosso templo sagrado.

A Vila tornou-se a verdadeira boutique do bom futebol, aquele que se assemelha à arte.

Opine!

Fonte de Dados: Centro de Memória e Estatística do  Santos Futebol Clube

* Victor Pereira é RP, bom de bola e louco pelo Santos, assina a coluna “Moleque da Vila” no Fut’n’Roll. Seu twitter é o @victor_pereira

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