Basquete/Entrevistas

Tabelinha com o Barba – Exclusivo: Atual campeão do NBB, técnico José Neto garante que o basquete masculino do Brasil vai estar forte na Rio-2016

O Brasil vive um momento de incerteza no basquete masculino. Depois de uma péssima campanha na Copa América, a Seleção Brasileira sonha com o convite da Federação Internacional (FIBA) para disputar o Mundial de 2014, que será disputado na Espanha, para não ficar de fora da competição pela primeira vez na história. Entre os pré-requisitos para a escolha dos quatro países agraciados, estão o comprometimento dos jogadores com suas seleções nacionais e o pagamento de uma ‘doação’ em dinheiro, que seria utilizada para o desenvolvimento do basquete. A decisão final sairá entre 1 e 2 de fevereiro de 2014, dias antes do sorteio das chaves da competição em 3 de fevereiro em Barcelona.

Em meio a esse ambiente, a comissão técnica da Seleção Brasileira tem como objetivo principal a consolidação da equipe que vai disputar a Olimpíada de 2016, no Rio de Janeiro. “O Brasil pode ser muito forte como equipe e para isso precisamos de todos, pois assim sabemos que podemos conquistar outra coisa importante, que é a consolidação da modalidade no país. Para os Jogos Olímpicos de 2016 a equipe tem que estar muito bem preparada. Um planejamento bem elaborado e executado aumentam essas chances. Isto já está sendo feito”, afirma José Neto, técnico do Flamengo, atual campeão do NBB, e auxiliar de Rubén Magnano na Seleção Brasileira.

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Seleção Brasileira na Olimpíada de Londres
Foto: Gaspar Nobrega/Inovafoto/CBB

Em mais uma Tabelinha Exclusiva do Fut´N´Roll, o treinador fala sobre a recuperação da modalidade no País, a importância das categorias de base, a profissionalização da Liga Nacional, o trabalho da Seleção Brasileira e os polêmicos pedidos de dispensa de atletas que atuam na NBA. Acompanhem a íntegra da entrevista:

 

Thiago Barbieri – Neto, antes de falarmos de seleção, parabéns pela conquista do NBB, à frente do Flamengo. O que essa conquista representa para você e para o clube, que volta a brilhar entre os principais do país?

José Neto – Fico muito feliz de poder ter contribuído para mais uma conquista do Flamengo no basquete brasileiro depois de quatro anos. Para mim foi ainda mais gratificante poder estar à frente desta equipe que contou, além dos ótimos jogadores, também com a participação de profissionais competentes na comissão técnica. Foi um prêmio para o excelente trabalho que fizemos desde a pré-temporada.
TB – Quais foram as maiores dificuldades na campanha do título deste ano?

JN – Desde o início sabíamos que a temporada iria ser dura, já que disputamos quatro competições (Carioca, NBB, Sulamericano e Liga das Américas). Precisávamos fazer um bom planejamento para que pudéssemos suportar estas competições e brigarmos para chegar o mais longe possível em todas. As lesões foram inevitáveis e com certeza este foi o maior desafio. Não perder a qualidade da equipe mesmo sofrendo com os desfalques.

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José Neto comandou a vitoriosa campanha do Flamengo, atual campeão do NBB
Foto: Alexandre Vidal/Fla Imagem

TB – O time já está se reformulando para as próximas temporadas. O que vai mudar com as chegadas de jogadores estrangeiros, como o armador argentino Nicolás Laprovittola e o pivô americano Jerome Meyinsse? Vai ser um grupo mais forte do que o que venceu o NBB?

JN – Além destes dois que foram citados, o Flamengo trouxe também o Cristiano Felício que, sem dúvida, tem um futuro promissor no cenário do basquete. A ideia é fazer deste novo grupo tão forte quanto o que ganhou o NBB, já que a maioria das equipes também se reforçou e a expectativa é de uma temporada ainda mais dura.

TB – Quais vão ser os principais adversários do Flamengo na luta pelo bicampeonato?

JN – Acredito que todos os adversários merecem respeito pelo trabalho que fazem e pelos objetivos que traçam. O esporte tem mostrado todos os dias que ninguém ganha de véspera. Que a vitória só acontece se fazemos acontecer. O NBB é uma competição “jovem” que a cada ano vai melhorando o seu nível. Esta temporada as equipes investiram muito para poder jogar a competição. Equipes que já chegaram às finais querem voltar, como é o caso de Brasília (tricampeão do NBB), São José dos Campos, Uberlândia, Bauru, Franca, Pinheiros (atual Campeão da Liga das Américas). Outras equipes investiram para chegar a esta fase, como Limeira, Paulistano, Ceará, Minas, Palmeiras, Mogi, Sorocaba e Vila Velha. Também as novas equipes desta temporada, como Macaé, que é uma das equipes que mais investiu, e Goiânia, que já teve grande elenco e volta a investir na modalidade. Enfim, penso que todo jogo tem a sua importância e é necessário estar sempre preparado para poder vencer.  

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Neto joga junto com a equipe em partida do NBB.
Foto: Alexandre Vidal/Fla Imagem

TB – Você já está há alguns anos na comissão da seleção, mas esse título te dá também uma chancela diferente no grupo do Magnano?

JN – Minha função na seleção brasileira adulta é diferente da que exerço no clube. Como assistente tenho a função de colaborar com o trabalho do Rubén. Acredito ter a confiança dele desde quando começamos a trabalhar juntos (2010). O título do NBB não mudou a confiança que ele sempre teve no meu trabalho. Espero poder continuar contribuindo para o trabalho dele na seleção.

 

TB – Como tem sido o trabalho com ele? O que ele agregou para a o seu desenvolvimento como técnico?

JN – Sempre acreditei que para ser um bom técnico é necessário saber mais do que técnica e tática do basquete. É ser um gestor de pessoas. Isso não é tão fácil. Como conduzir um grupo ao objetivo proposto. Através de um planejamento traçado e execução deste, poder tornar estes objetivos mais próximos. O Rubén é um profissional que é respeitado mundialmente por tudo o que já fez pelo basquete. A convivência com o trabalho no dia a dia com ele é um aprendizado que utilizo muito para poder ajudar a atingir os meus objetivos.
TB – A evolução tática do time é notória, mas o que falta para chegarmos aos jogos de 2016 com chances reais de medalhas?

JN – O basquete mundial evolui a cada dia! Com isso as exigências são sempre maiores. Temos que continuar evoluindo para que possamos sempre ter uma chance de brigar por medalhas. Para os Jogos Olímpicos de 2016 a equipe tem que estar muito bem preparada. Um planejamento bem elaborado e executado aumentam essas chances. Isto já está sendo feito.

 

TB – Os pedidos de dispensa dos jogadores convocados sempre geram polêmica entre os torcedores e jornalistas. Até jovens promessas como Lucas Bebê têm preterido a seleção. Como o grupo recebe isso?

JN – O que vejo é que as polêmicas criadas não atingem o trabalho que está sendo realizado. O grupo que está presente tem apenas um foco: dar o melhor de si para a seleção. E isso tem acontecido sempre. Cada jogador que está presente trabalha diariamente para poder fazer bem uma função na equipe.

TB – O Magnano já se mostrou insatisfeito com as dispensas e citou o Marcelinho Huertas como exemplo de atleta que tem prazer em defender a seleção. Você concorda com ele?

JN – Uma coisa é indiscutível: todos os jogadores são importantes! De acordo com tudo que falei anteriormente sobre a evolução do basquete mundial, tanto a presença de jogadores que disputam as competições de primeiro nível mundial como NBA, NCAA e campeonatos europeus, contribuem muito para aumentar a qualidade da equipe, assim como aqueles que estão disputando o NBB. Qualquer jogador convocado que não pode vir, vai fazer falta, pois se foi convocado entende-se que é importante para a seleção. Tenho certeza que o Brasil tem condições de figurar entre os melhores do mundo. Isto já foi mostrado recentemente em Londres. Agora é focar pra frente e trabalhar para as próximas competições.

TB – Por falar em Marcelinho, vocês se conhecem desde as categorias de base. Ele pode ser o nosso principal nome na Olimpíada?

JN – O Marcelo é um dos jogadores de referência na equipe, por sua função como capitão e como armador. O Brasil pode ser muito forte como equipe e para isso precisamos de todos, pois assim sabemos que podemos conquistar outra coisa importante, que é a consolidação da modalidade no país. Temos uma liga nacional em ascensão e, somado com o sucesso da seleção, podemos gerar uma evolução ainda maior do basquete no Brasil.

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FIBA anuncia em fevereiro os quatro países convidados para o Mundial; Brasil de olho na vaga.
Foto: Gaspar Nobrega/Inovafoto/CBB

TB – Como fica a preparação para a Olimpíada a partir de agora, sem a vaga no Mundial? Como explicar a má campanha na Copa América?

JN – Temos ainda uma esperança do convite da FIBA para que o Brasil possa jogar o mundial na Espanha em 2014. Sem dúvidas participar deste mundial faz parte do processo de evolução da equipe para chegarmos ainda mais forte aos Jogos Olímpicos em 2016 no Rio. Sobre a Copa América, já deixei claro nas outras respostas o que penso sobre o basquete internacional. As competições estão cada vez mais competitivas e equilibradas. Vimos um título inédito do México na Copa América; na Europa as tradicionais seleções da Grécia, Rússia, Itália e a atual vice-campeã mundial Turquia não conseguirem a vaga através desta competição. Na Ásia a seleção da China também não conseguiu a classificação dentro do pré-mundial de seu continente. Isto não tem o intuito de justificar nada, mas de exemplificar que o basquete é uma das modalidades mais competitivas do mundo e nada se consegue antecipadamente.

 

TB – Eu te acompanho desde as categorias de base do Paulistano. Mas faz um resumo da sua carreira para o nosso leitor te conhecer melhor. Você sempre quis ser técnico? Por quais clubes já passou, quais as suas principais conquistas? Por onde atuou como jogador?

JN – Desde quando comecei a jogar basquete, aos 12 anos, fui gostando cada vez mais do esporte e alimentando alguns sonhos. Como jogador não tive grande expressão, mas queria continuar no basquete. Foi então que fiquei motivado a fazer o curso de Educação Física. Iniciei este curso na USP em 89 e terminei em 92 quando comecei a trabalhar na “escolinha” de basquete do C.A. Paulistano, onde passei por todas as categorias de base e adulto até 2007.  Em 2007 assumi a equipe da ULBRA/São Bernardo e disputamos a final do Campeonato Paulista que foi conquistado por Franca. No ano seguinte a equipe disputou o Nacional de basquete por Rio Claro e ficamos na 5a colocação. Em 2010 dirigi o Palmeiras no Paulista, 2011 fui para o Joinville e 2012 para o Flamengo.

Já em seleções, em 2004 fui convidado a integrar a comissão técnica da seleção brasileira adulta, que era comandada pelo Lula. Em 2006 assumi a seleção brasileira sub18 que jogou o pré-mundial nos EUA. Conseguimos a vaga para o Mundial da Sérvia no ano seguinte e terminamos com o 4º Lugar. Abaixo outras atividades com seleções brasileiras:
Técnico da seleção Brasileira Lusofonia em Lisboa (Portugal) -09 (Semifinal)

World Championship in Japan – 06 (Assistente técnico)

World Championships in Turkey -10 (Assistente técnico)
Técnico da Seleção Brasileira – World Championships U19 in Latvia -11
Panamerican Games in Guadalajara (México) -11 (Assistente técnico)
Olympic Games in London (United Kingdon) -12 (Assistente técnico)
Técnico da Seleção Brasileira – World University Games in Kazan (Rússia) -13
FIBA Americas Championships in Caracas (Venezuela) -13 (Assistente Técnico)

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“Para ser um bom técnico é necessário saber mais do que técnica e tática do basquete. É ser um gestor de pessoas”
Foto: Gaspar Nobrega/Inovafoto/CBB

TB – Como você vê o trabalho nas categorias de base no Brasil?

JN – Dependemos muito do trabalho dos clubes. Acredito que os clubes estão tomando ciência da necessidade de se trabalhar com a formação. Temos que dar condições para que haja uma evolução global do atleta na categoria de base (física, técnica, tática, psicológica). Temos que evoluir na capacitação dos profissionais para trabalhar com estas categorias. A ENTB pode ser este meio. Espero que isto possa acontecer a passos largos.

TB – Por alguns anos, o Basquete perdeu espaço para o Vôlei. Como voltar a ser o segundo esporte do país, já que o futebol ainda está muito à frente das outras modalidades, pelo menos em termos de investimento e faturamento?

JN – Investimento e faturamento estão diretamente relacionados a resultados. Não basta apenas ter resultados, mas utilizar os benefícios que o resultado traz para investir nos diversos setores que podem impulsionar a modalidade. Potencializar o investimento na modalidade, nos profissionais, estrutura, visibilidade (“massificação”), formação, entre outros.

TB – O Flamengo sempre teve muita tradição no Basquete, assim como outros grandes clubes, como Vasco, Corinthians e Palmeiras. O Oscar foi campeão brasileiro no Corinthians e também conquistou títulos pelo Flamengo, impulsionando o esporte nas duas maiores torcidas de massa do País. O que você acha dessa associação do basquete com o futebol?

JN – O Flamengo tem uma tradição no basquete, uma torcida que entende a modalidade e é presente! É muito bom poder jogar como visitante e saber que, mesmo fora, vamos ter apoio da torcida. Isso é muito importante para o processo de massificação da modalidade e, a partir daí, atrair investimentos para melhorar o nível da equipe e da competição.

TB – Para terminar, você se vê como técnico principal da seleção no futuro?

JN – Todos têm sonhos. Lógico que este é um dos meus, mas sei o momento de cada coisa. Estou trabalhando bastante para estar preparado e poder ter condições se um dia esse momento chegar. Agora na seleção quero dar o meu máximo para poder contribuir com o trabalho do Ruben Magnano. Ajudá-lo a levar o Brasil a um nível ainda maior! Agora o foco é outro. Tenho uma temporada com o Flamengo onde quero contribuir ao máximo para atingir os objetivos da equipe.

* Thiago Barbieri é jornalista, esportista e apaixonado por música, e assina a coluna “Tabelinha com o Barba” no Fut ‘n’ Roll. No twitter, ele é o @ThBarbieri

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