Futebol

Dedo de Moça – Fala, Foto! – Ele deixou Pinochet com a mão no ar

Por Priscila Tieppo*

Para lutar contra uma ditadura é preciso resistir. E as armas são sempre desleais.

Carlos Caszely, um dos mais importantes jogadores do Chile, sabia que poderia estar em desvantagem, pois só tinha sua voz, mas resistiu e declarou-se contra o golpe militar instalado naquele país nos anos 70 pelo general Augusto Pinochet.

No dia 11 de setembro de 1973, as forças militares atacaram o Palácio de La Moneda e mataram o presidente Salvador Allende, a quem Caszely admirava.

Carlos Caszely vestindo a camisa da seleção do Chile - Getty Images

Carlos Caszely vestindo a camisa da seleção do Chile – Getty Images

Logo, o jogador, que era a estrela do futebol chileno naquele momento, declarou-se contra o regime militar e teve de ver sua mãe ser torturada por conta de sua posição política.

“Eu penso que eles estavam me fazendo pagar pela oposição. Pagar por isso com o que era mais querido por mim – a minha mãe. Só porque eu disse não à ditadura. Eu disse não à ditadura em todos os níveis: não ao ditador, não à tortura. Então eles me fizeram pagar por isso com o que fizeram com minha mãe”, declarou Caszely.

Manteve-se firme e não cedeu à repressão. Ele sabia que estava lutando por seu país e que não estava sozinho. Muitos estavam sendo torturados e mortos. Algo precisava ser feito.

No auge, atuando como ponta-direita na seleção (foto), Caszely conseguia se defender das torturas, apesar de ter sido perseguido e do episódio com sua mãe. Mas, fisicamente, com ele nada poderia ser feito. O futebol foi usado como “cortina de fumaça”, como já aconteceu muitas vezes e ainda acontece.

Sua genialidade em campo era indiscutível. O fato é que Caszely ficou conhecido no mundo todo como “o homem que recusou o aperto de mão de Pinochet”. Sim, o jogador deixou o ditador sanguinário com a mão no ar e não o cumprimentou, durante uma recepção do time chileno no país. Ali, firmava mais uma vez sua postura contrária à ditadura.

“Eu não poderia apertar a mão de alguém que estava fazendo tanta gente sofrer”, afirmou mais tarde.

As imagens de sua campanha contra Pinochet em um plebiscito ocorrido no Chile em que o país disse não ao ditador podem ser revistos no filme “No”. O jogador aparece ao lado da mãe pedindo para que as pessoas negassem a repressão. A quem dominar um pouco o espanhol, segue.

Assim, Caszely entrou para o hall dos jogadores que se engajaram politicamente em seus países. Recentemente, um documentário chamado “Os Rebeldes do Futebol” reúne personalidades que tiveram essa coragem. Entre eles, além de Caszely, está o craque corintiano, já falecido, Sócrates, a quem o chileno admirava.

Certa vez, disse em conversa com o jornalista Juca Kfouri: “Pelé, o maior. Como jogador. Mas conversar mesmo, tomar um café e fumar um cigarro, só com um, só com Sócrates, que era muito mais que um grande jogador, era um cidadão capaz de falar sobre tudo e muito bem. Fazia bem conversar com ele”.

Caszely é a prova viva de que em tempos de ditadura o futebol podia fazer diferença.

*Priscila Tieppo é jornalista e assina a coluna Dedo de Moça no Fut ‘n’ Roll. No twitter, ela é a @ptieppo.

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