Futebol

Opressão e título mundial

A Argentina cumpriu o sonho de levantar uma Copa do Mundo pela primeira vez há exatos 35 anos. Os portenhos ansiavam pelo título desde 1930, quando atravessaram o Prata, mas perderam a decisão para o Uruguai em Montevidéu.

E se você acha que o Brasil vive um momento político complicado no período de realização de um Mundial, não sabe o que acontecia na Argentina em 1978. Os hermanos sediaram a Copa enquanto viviam a mais cruel e sangrenta ditadura militar da América do Sul, então comandada pelo recém falecido general Jorge Videla.

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Tanto que várias denúncias de violação dos direitos humanos foram feitas na época, até para impedir a realização do torneio na Argentina. A repressão estava no ápice naquele país, com estratégias desumanas de acabar com a ameaça subversiva. A mais conhecida delas era o chamado voo da morte, que consistia em que colocar os prisioneiros dopados e empilhados em aviões da força aérea argentina e jogá-los ao mar, muitos ainda com vida, quando o veículo se distanciava da costa do país. Segundo um ex-militar argentino, mais de quatro mil pessoas foram eliminadas dessa maneira.

Para dar uma acalmada na população e amenizar as críticas, o governo militar decidiu que ganhar a Copa do Mundo em casa seria a melhor maneira. E não pouparam esforços para isso. A estratégia era a mais óbvia quando o povo contesta um regime: alienar todo mundo, ocupando suas cabeças com o sonho de ser campeão e esquecer de buscar informações desencontradas que boa parte da imprensa omitia nos grandes jornais.

Foto: Getty Images

Foto: Getty Images

Muitos países europeus olhavam a realização da Copa na Argentina de maneira torta, especialmente por causa do regime que governava o país. A Holanda sempre foi contra a realização do torneio. Cruyiff, seu principal jogador, sequer viajou à Argentina, em circunstâncias confusas até os dias atuais. Mas, em troca da libertação de um preso brasileiro em Buenos Aires, filho de diplomatas, o então presidente da Fifa, João Havelange, articulou para a confirmação da Argentina como sede da competição mais importante de seleções do planeta.

Com tudo confirmado politicamente, coube a Cesar Luís Menotti armar um time para ser campeão. Os jogadores, claramente contra o regime, faziam questão de separar a questão política da futebolística. “Faço tabelas com Kempes e Bertoni, não com o governo”, chegou a afirmar o atacante Luque. Menotti, esquerdista convicto e oposicionista ao governo, talvez com medo de perder o cargo ou a própria vida, passou o torneio calado.

Fato, o time da Argentina era muito bom. Fillol no gol, Passarela na defesa, Ardiles no meio e um ataque com Kempes e Luque no auge de suas formas. Mas não tem como não apontar alguns fatos. Por exemplo, a Argentina foi o time que menos viajou pelo território durante o mundial, jogando quase todas suas partidas no Gigante de Arroyito, na cidade de Rosario, enquanto seus rivais se desgastavam com longas viagens pelo país. Isso sem contar a tabela, que ajudou os anfitriões na fase semifinal, quando, na última rodada, a Argentina saberia quantos gols teria de marcar no Peru para avançar à decisão, culminando no polêmico 6 a 0.

Na final, no dia 25 de junho de 1978, a Argentina enfrentaria a Holanda, ainda um time forte, mas que não era mais o mesmo que encantou o mundo quatro anos antes, especialmente pela ausência de Cruyiff. E, apesar de quase ter vencido o jogo em uma bola que caprichosamente bateu na trave no último minuto do tempo normal, os holandeses sucumbiram na prorrogação, perdendo a partida por 3 a 1, após empate em 1 a 1 nos 90 minutos iniciais

Apesar de vincular o título mundial à sua gestão, o general Videla sempre foi mais lembrado pelos 30 mil assassinatos cometidos em sua gestão em atos de opressão por parte do governo.

Foto: Arquivo Fifa

Foto: Arquivo Fifa

Infelizmente, um dos maiores times formados pela Argentina sempre carregará um ‘mas’ ao contar a história do seu título mundial.

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