Futebol

O treinador do Terceiro Reich

Aquilo parecia impossível. O time da Hungria em 1954 era uma constelação de estrelas jogando juntas em nome da glória. Muitos, antes e depois de 1954, disseram que o futebol praticado por Puskas, Kocsis, Hideguti e Czibor era um balé inesquecível para aqueles que presenciaram essa equipe em campo.

Os magiares chegaram à final da Copa do Mundo de 1954 com marcas incríveis. Eram os atuais campeões olímpicos, em 1952, e tinham uma invencibilidade de 31 jogos. Na primeira fase da Copa, venceram a adversária da final, a Alemanha, por cruéis 8 a 3. Depois, ainda eliminariam o Uruguai, então campeão do mundo, e o Brasil, futuro campeão do mundo.

E, no começo do grande jogo final, no Wankdorfstadion, em Berna, os húngaros abriram 2 a 0 em oito minutos.

A partir daí, ocorreu o que o mundo chamou de o Milagre de Berna. Virou até filme.

Os alemães viraram o jogo e conquistaram o seu primeiro título mundial. O futebol se consagrara no país e o sucesso do time teve um pai: o treinador Sepp Herberger.

Herberger assumiu o time depois do fracasso nas Olimpíadas de Berlim em 1936, substituindo Otto Nerz, de quem era um auxiliar. Sua missão era remontar uma equipe que estava destruída e chegar à Copa de 1938 com outro sentimento.

Mas o país tinha suas necessidades políticas e Herberger foi obrigado a incluir no time jogadores da recém anexada Áustria. O resultado foi mais um grande fracasso e a eliminação na primeira fase na Copa da França.

E, com a suspensão alemã das competições internacionais graças à sua participação na Segunda Guerra Mundial, restou ao treinador apenas manter contato com os seus jogadores. Em 1950, foi renomeado técnico da seleção para o projeto de reconstrução do selecionado local. A missão? Construir uma equipe corajosa e campeã.

Autoritário e disciplinador, Sepp Herberger sempre foi duro no trato com os jogadores. E não tinha pena em afastar jogador que permitia que o vício atrapalhava o rendimento em campo.

Mas o treinador também tinha um outro lado que só foi apresentado ao mundo recentemente, revelado em 2005, no livro “Futebol sob a Suástica”. Ele era muito próximo do regime encabeçado por Adolf Hitler. Era filiado ao partido do Reich desde 1933 e mostrou algo à sociedade alemã: mesmo no esporte, se manifestam as fraturas da história do país.

Tanto que a criação de um Hall da Fama do esporte no país só ocorreu em 2008. E ainda assim, foi tratado como um grande campo minado, exatamente por revelar histórias de homens considerados herois, como Sepp Herberger. Mas com manchas no currículo. Até a imprensa local trata o espaço como Hall of Shame (Hall da Vergonha).

Isso não era só média com o chefe

Voltando ao livro, ele mostra que a maioria dos diretores da Federação Alemã de Futebol colaboravam com o regime. Sepp Herberger até ajudou na propaganda do regime ao participar do filme  “Das Grosse Spiel” (O grande jogo).

O reconhecimento veio pelo ministro do interior alemão em 2005, Otto Schily. Ele admitiu que, apesar de doloroso, a obra coloca uma sombra na história de Sepp Herberger e acrescentou que “não existe na história alemã nenhuma violação mais vergonhosa das regras do esporte e da humanidade como a sucedida na época de Hitler.

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