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“Tabelinha com o Barba” – Libertados é sucesso de vendas e esgota 10 mil unidades na 1ª Edição

Por Thiago Barbieri*

A coluna “Tabelinha com o Barba” estreia em alto estilo, com um bate-papo exclusivo com o fotógrafo Daniel Augusto Jr., que lançou “Libertados – Campeão da Libertadores Invicto 2012”, pouco mais de um mês depois da inédita conquista da Libertadores pelo Corinthians. A primeira edição foi um sucesso de vendas e esgotou dez mil livros.

Na próxima segunda-feira, dia 03/09, a segunda edição do livro será lançada no Estádio do Pacaembu.

“Libertados” é o quinto livro feito por Daniel para ilustrar conquistas do time, e o fotógrafo-corinthiano é responsável por um projeto pioneiro no Brasil e, desde 2008 acompanha o time profissional nos treinos, viagens e jogos.

A conversa com o Daniel mostra o lado torcedor, as experiências profissionais e, claro, da sonhada Libertadores pela Nação Alvi-negra. Daniel tem algumas paixões na vida, além da família: o Corinthians; a fotografia; e os Beatles, mas este último merece um capítulo à parte, por isso ficamos com os dois primeiros desta vez.

Aos 62 anos, Daniel se diz realizado em registrar os bastidores do Timão e revela ter recusado um convite para trabalhar com outros clubes para ficar no Parque São Jorge. Sobre os avanços tecnológicos na fotografia, Daniel resume bem o que acontece hoje em dia: uns “tiram” foto, outros fotografam.

Aproveitem a entrevista completa…

Thiago Barbieri – No livro você agradece a seu pai por ter te iniciado ao corinthianismo. Fala da sua relação com o time e qual a grande recordação que você tem como torcedor?

Daniel Augusto Jr.- Quem começa cedo, aprende cedo. E foi assim com o Timão. Meu pai colecionava uma revista chamada “CORINTHIANS” editada pelo jornalista Otávio Muniz, e eu sempre lia. Daí, para se tornar torcedor foi um passo. Uma grande recordação foi em 1969 quando eu, meu padrinho, e dois amigos fomos de fusca ver Cruzeiro x Corinthians no Mineirão. Chegamos no sábado de madrugada e dormimos em quatro no velho fusca. Dá para imaginar? Outra quando da invasão do Maracanã, em 1976, jogo contra o Fluminense quando saimos finalistas do Campeonato Brasileiro.

TB- Antes de falarmos do novo livro, conte um pouco da sua trajetória no jornalismo e no fotojornalismo.

DJR.- Comecei na Agência F4, uma cooperativa de fotojornalistas paulista, que tinha seu estatuto copiado da agência Magnum francesa de Cartier Bresson. A F4 foi uma das primeiras agências brasileiras a lutar e discutir a implantação de uma tabela de preços mínimos para o nosso trabalho; pela aplicação da Lei 9610/98, a Lei do Direito Autoral aplicada à fotografia, dentre outras lutas. Trabalhei em quase toda imprensa de São Paulo. Fotografando apenas futebol, para o Placar e para o Lance. Em 2003 fui convidado para fotografar para o site do Corinthians, e em 2008, como fotógrafo oficial do time.

TB- A foto do gol do Tupãnzinho em 1990 foi um marco na sua carreira?

DJR.- Não diria que foi um marco, mas um dos registros mais importantes em futebol. Pelo seu significado – foi o primeiro Campeonato Brasileiro do Corinthians, em 1990 – pela beleza da foto. E por ser exclusiva, já que ninguém tem essa imagem.

Foto: Daniel Augusto Jr

TB- Como surgiu a ideia de você se tornar o fotógrafo exclusivo do Corinthians?

DJR.- Como disse acima, eu fotografo para o site do Corinthians desde 2003, sempre alimentando a idéia de fotografar os bastidores. Por uma série de problemas, isso nunca tinha dado certo. Quando o time caiu para a série B do Brasileirão em 2007, percebi que alí tinha uma história a ser contada, a volta do time para a série A. O Departamento de Marketing do Corinthians acreditou no projeto e a idéia vingou: em janeiro de 2008 eu me apresentava em Itu ao técnico Mano Menezes como o novo fotógrafo do time.

TB- Você enfrentou alguma resistência ou rejeição de jogadores e técnicos quando iniciou o trabalho no Corinthians? Como é essa relação hoje, depois de quase cinco anos de convívio com o grupo de atletas?

DJR.- Nunca nenhuma restrição. Sempre muito bem tratado por todos, sem exceção. A maior prova disso é o carinho que me tratam quando do lançamento de livros. Mesmo sendo um baita trabalho para eles por conta do assédio dos torcedores, comparecem e dividem a noite de autógrafos comigo.

TB- Aceitaria fazer um trabalho semelhante em um clube rival?

DJR.- Como profissional sim, mas com o coração, não. Aliás essa oportunidade já ocorreu e eu não quiz largar o trabalho no Corinthians e indiquei um amigo que está lá até hoje.

TB- O seu trabalho no Corinthians tem valorizado mais o profissional da fotografia? Como você analisa o mercado de fotojornalismo hoje em dia?

DJR.- Vixi!!!!!!! A revolução digital foi um bem muito grande, mas também um mal terrível. Popularizou-se a câmera fotográfica, o que é muito legal, muito mais pessoas estão fotografando. O problema é que todo mundo acha que fotografa. Um dia, o Júlio César, goleiro, passou por mim no treino e disse na sacanagem: “Pooo….que teta, tirar fotografia é manha…”. E eu respondi: Tirar fotografia é manha, o duro é fotografar…”. Ele nunca mais esqueceu e até hoje nós brincamos um com o outro. Então é isso: uns “tiram” foto, outros fotografam. Só que o mercado profissional, para baixar custos e sem entender de fotografia, usa qualquer imagem, muitas vezes gratuitas, e o mercado profissional vai ficando cada vez mais prejudicado. Sem contar que para internet, um arquivo digital pequeno, qualquer coisa serve. Se a foto ficar ruim, o photoshop resolve. Depois de quatro anos e meios no Timão, já temos cinco livro editados, todos resultantes de campenatos ganhos: Em 2008, “EU VOLTEI ! “; em 2009, o “CAMPEONATO PAULISTA INVICTO”;  o “COPA DO BRASIL 2009”; em 2011, o “PENTACAMPEONATO BRASILEIRO” e agora o “LIBERTADOS”. Quanto ao meu trabalho no Corinthians, a pergunta abaixo responde.

TB- Porque os outros clubes não apostam em projetos como o que você realiza no Corinthians?

DJR.- Na verdade começam a acreditar no projeto. Quando eu comecei em 2008, o único que tinha algo parecido com um projeto embrionário de fotógrafo de clube era o São Paulo. Nós revolucionamos esse mercado, já com o lançamento no primeiro ano, do livro “EU VOLTEI” que contava a história da volta à série A do Brasileirão. Os clubes hoje começam a acreditar e já temos até uma comunidade no Facebook de fotógrafos de clubes com dezoito membros. É sinal que viemos para ficar. Espero que mais clubes vejam a importância desse trabalho documental do dia a dia. Além de abrir as portas para uma nova função do repórter fotográfico, a história desses importantes clubes brasileiras fica marcada para sempre.

Foto: Rodrigo Coca

TB- A internet tem um poder de divulgação enorme, mas vocês, fotógrafos, sofrem ainda com o uso indevido de fotos suas, sem o crédito. Como você vê essa relação com as ferramentas digitais?

DJR.- Eu fico atento a tudo o que posso. Tenho alguns serviços digitais de rastreamento das minhas imagens. E sempre que vejo algum roubo, uso indevido, aciono meu departamento jurídico e uso a Lei 9610/98 que me dá esse direito. E aí, uma crítica aos nossos cursos de jornalismo nas faculdades: os alunos não tem contato com essa Lei, ou os tem superficialmente. Quando caem no mercado de trabalho profissional não sabem que a imagem tem proteção legal e as empresas acabam sendo processadas. Tenhos vários casos ganhos que seja por uso indevido não autorizado; falta de crédito; manipulação da imagem original.

TB- Você se considera um pé quente, afinal já são cinco livros ilustrando títulos do Corinthians? Conte uma curiosidade de cada um desses livros…

DJR.- Wow!!! Difícil lembrar de todos os livros. Fica uma do último “LIBERTADOS”: quando eu entrei na Vila Belmiro para o primeiro jogo das semifinais contra o Santos, eu achei uma moeda de um real; na sacanagem, levantei a moeda para o céu – e olha que sou um agnóstico convicto – e disse que aquela seria a minha moedinha da sorte, e com ela ganharíamos a Libertadores. Dá para perceber, então, que não foi o esforço dos jogadores, nem o condicionamento físico feito pelo preparador físico nem a parte tática do Tite que ganharam a Libertadores. Foi a minha moedinha da sorte…(risos……).

TB- A Libertadores sempre foi o grande sonho e a grande frustração do corinthiano, até esse ano. Antes de 2012, você acompanhou de perto as eliminações para o Flamengo e Tolima. Em algum momento da atual campanha você achou que teria mais um livro de Libertadores “arquivado”, ou sempre acreditou que o título seria alvinegro?

DJR.- No jogo contra o Vasco da Gama no Pacaembu quando o Cássio fez aquela defesa monumental; no primeiro jogo contra o Boca Juniors na Bombonera, sim. Foram momentos de muita tensão. Mas parece que estava escrito que tinha que ser nossa. Quando o Romarinho empatou o jogo na Bombonera, foi como se tivessem tirado com as mãos um peso enorme nos ombros.

TB- E essa história que você criou um arquivo no seu computador chamado “Aquele Livro”?

DJR.- Era para eu mesmo não secar. Eu venho editando as melhores fotos de treinos e jogos durante a competição. E essas fotos têm que serem salvas em uma pasta, com um nome. Não queria colocar “LIVRO_LIBERTADORES_2012”; então coloquei “AQUELE_LIVRO”.

TB- Você tem alguma superstição ou faz algum ritual nos jogos do Corinthians?

DJR.- Como disse antes, sou agnóstico convicto. Então, não tenho nada de especial para fotografar os jogos, apenas concentração.

TB- Quais as três fotos que você mais gosta do “Libertados”?

DJR.- O Liédson sendo levantado pelos companheiros após marcar seu gol de pênalti contra o Táchira, no Pacaembu; o gol do Romarinho, na Bombonera, pelo seu significado; o Chicão rezando, nos vestiários contra o Emelec, do Equador.

Foto: Daniel Augusto Jr

TB- Neste livro são quase duzentas fotos publicadas e outras centenas que ficaram de fora. Tem alguma foto que você gostaria de ter feito e que por algum motivo perdeu aquele instante do click?

DJR.- Gostaria de ter feito o Paulinho no alambrado com o torcedor. Mas essa foto teria que ser feita da arquibancada, de frente para o Paulinho. Como eu nunca fotografo da arquibancada, não a tenho.

TB- Daniel, quais foram as dificuldades que você enfrentou para as fotos do “Libertados”, sofreu muita pressão nos jogos no exterior?

DJR.- Teve um jogo no México, contra o Cruz Azul, em que a entrada dos vestiários ficava muito próxima dos torcedores. E quase todos nós fomos atingidos por “água”; cusparadas, copinhos de plástico. Mas nada que não seja normal em um campo/estádio de futebol sul-americano.

TB- Você registrou muitos momentos de fé dos jogadores, do Tite e até da direção do time nos bastidores dos jogos. Você também é uma pessoa religiosa?

DJR.- Está respondido acima: sou agnóstico convicto. Mas esses momentos de concentração e religiosidade são muito bonitos do ponto de vista estético. Por isso tem várias fotos.

TB- O fato de você acompanhar o time em período integral, inclusive nos treinos, te ajuda a prever jogadas de gol, como a foto da cabeçada do Paulinho contra o Vasco?

DJR.- Engraçada essa pergunta. Como eu vejo os treinos, fico vendo quais são as jogadas ensaiadas. Nesse lance do gol do Paulinho, o Alex bateu o escanteio, ao meu lado. Baixinho, eu disse para o Alex, mas não era para ele escutar: “Alex, acerta esse pé, acerta só esse escanteio”. E deu no que deu…risos…..

TB- Naquele jogo, a ligação do time com a torcida foi enaltecida ao extremo, com o Tite na arquibancada e o Paulinho comemorando o gol da classificação no alambrado.

DJR.- Era um momento muito, mas muito tenso. O gol do Paulinho descarregou toda essa tensão, a alegria foi imensa.

TB- Já tem planos para o livro do mundial?

DJR.- Dizer que não seria hipocrisia. Uma foto na internet você vê na hora e esquece; uma foto em jornal é legal no dia, depois vai enrolar peixe na feira livre ou virar fundo de gaiola de passarinho. Agora um livro pressupõe planejamento, burocracia. Então vamos pensar em alguma coisa diferente, até porque, caso o time venha ser campeão, são apenas dois jogos, o que deixa qualquer projeto mais difícil de ser concretizado.

Foto: Daniel Augusto Jr

TB- Na Libertadores de 2013 pode haver uma nova edição do clássico com o maior rival, responsável por duas eliminações traumáticas no passado. Esse é o último tabu do Corinthians na competição? Que imagem você gostaria de registrar para simbolizar uma possível revanche?

DJR.- Nada de especial. A foto do capitão do Corinthians, erguendo a taça de campeão de 2013 me deixaria muito satisfeito. E acredito que trinta milhões de loucos também ficariam.

TB- Para encerrar, o fotógrafo-torcedor Daniel consegue separar a emoção da razão na hora do trabalho?

DJR.- Não e tenho como provar. Quando o Corinthians foi Campeão Brasileiro pela primeira vez em 1990 eu trabalhava para o Placar. O gol do Corinthians saiu no segundo tempo, do lado onde eu estava sentado. A foto do gol do Tupanzinho é exclusiva, só eu fiz, e é uma das melhores fotos de futebol que eu já fiz. Se eu não estivesse concentrado no trabalho, com o corinthianismo falando mais alto, eu jamais teria feito aquela foto, que hoje tem um lugar de destaque no Memorial do Clube, em um painel enorme na entrada.

*Thiago Barbieri é jornalista e assina a coluna Tabelinha com o Barba no Fut’n’Roll

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3 pensamentos sobre ““Tabelinha com o Barba” – Libertados é sucesso de vendas e esgota 10 mil unidades na 1ª Edição

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